abr 172010
 

por Maíra Pádua

Jovens desempregados, sem perspectivas, sem dinheiro, na úmida e nublada Inglaterra em meados dos anos 70. Estavam cansados do virtuosismo musical dos solos de teclado intermináveis e tediosos do rock progressivo, e tampouco se identificavam com o colorido mundo do glam rock, comercial e superficial. Do outro lado do Atlântico, na cidade de Nova Iorque, um pequeno clube underground chamado CBGB fervilhava da autenticidade e rebeldia que faltava aos outros movimentos musicais: era o punk rock nascendo e tomando seus contornos de movimento de transformação e contestação social. O clube onde antes ouvia-se blues e outros sons agora incendiava-se ao som de bandas como os Ramones, a mais expressiva banda do punk rock americano.

Naquele contexto nova-iorquino já circulava o inglês Malcolm McLaren, empresário da protopunk e purpurinada New York Dolls desde 73, e proprietário da Let It Rock, uma loja de roupas em Londres voltada para um público, digamos, alternativo. Ao entrar em contato com todo aquele fervor musical da Big Apple1, Malcolm não deixou por menos seu faro para os negócios e para o showbiz2: adaptou o principal mote do movimento punk que estava se formando, o “faça você mesmo”, numa fórmula aplicável comercialmente, das roupas de sua loja à conduta dos integrantes. A atitude e a ideologia tornaram-se tão ou mais importantes que a própria musicalidade da banda. Tendo isso em mãos, Malcolm pretendia politizar os Dolls e fazê-los estourar na Inglaterra, tudo sob suas graças de mentor… Porém a banda recusa-se a assumir essa postura e rompe com o empresário, que volta à sua terra natal com uma nova ideia.

De volta a Londres, Malcolm decide chamar músicos que reunissem os requisitos para montar uma banda punk nos mesmos moldes americanos. Montar? Sim, um empresário que monta uma banda para ele próprio empresariar! E é naquela entediada juventude londrina que Malcolm encontra esse substrato, nos frequentadores de sua própria loja, agora chamada SEX. O visual, a banda, a música, a loja, o público, o marketing… surgem os Sex Pistols! Banda, vitrine e ícone, os três num só. McLaren e sua namorada, a estilista Vivienne Westwood, eram apaixonados pela iconoclastia de símbolos que iam do nazismo a alfinetes de segurança, e pelos fetichismos das roupas de couro. Introduziram nos Pistols e no próprio movimento punk o visual que já lhes era conhecido da SEX, espalhando-se para todo o mundo após o boom do movimento em 1977 – o ano do punk.

Mais do que montar uma vitrine para sua loja, Malcolm e Vivienne tiveram grande importância na difusão do punk enquanto movimento cultural e comportamental, pois criaram uma identificação visual que claramente ajudou a difundir a cena da época. Parece ilógico e contraditório que o marketing de um manager3 e sua loja de roupas tenha beneficiado um movimento cujas raízes ideológicas foram fincadas no anarquismo, niilismo, pessimismo e na crítica social. Mas todo movimento cultural tem suas polêmicas e paradoxos, afinal. O punk apelava ao bizarro e ao chocante para se fazer ouvido, e este espírito contestador deixou marcas até hoje na cultura e na música mundial. O fato de ao seu redor se criar uma “moda punk”, conceito um tanto quanto oposto ao seu pano de fundo ideológico, não é sinônimo de descrédito ou superficialidade. Ao contrário, comprova a força de sua expressão.

Mecenas4 ou carrasco do punk? Admirado e odiado, Malcolm McLaren, esta figura ambígua da história do Rock’n'Roll, faleceu no dia 8 de abril deste ano, numa clínica na Suíça, de um tipo raro de câncer. O que permanecerá: as histórias, as contradições e os  Sex Pistols.

1 A “Grande Maçã”, apelido da cidade de Nova Iorque

2 Indústria do entretenimento

3 Empresário

4 Incentivador financeiro de atividades culturais

  4 Responses to “O punk e a moda nas mãos de Malcolm McLaren”

  1. Algumas correções.
    Malcom faleceu em uma Clínica na Suiça onde fazia tratamento para o cançer.
    MC5 e Stooges agitavam a cena de Detroit, o C.B.G.B antes de Ramones, Television, Talking Heads e Blondie, se dedicava ao Country, Blue Grass e ao Blues. (Dai o nome).
    O Rock denominado progressivo era o mainstream, o Glam foi base da sonoridade (simplificada) do que seria conhecido como Punk Rock.
    A contestação social acontece de maneira mais presente com a segunda leva do Punk, grupos como Exploited (explorados), Dead Kennedys e no Brasil, Cólera, Restos de Nada, são exemplos claros dessa contestação.
    No mais parabéns ao Inconfidência por tocar neste assunto e lembrar do genial Mclaren, que entre outras coisas, solidificou o Hip Hop também na grande mídia com a clássica Duck Rock.

  2. Peço desculpas, pois realmente estão erradas algumas informações que publiquei. Este artigo surgiu na ocasião da morte de Malcom, e tinha como objetivo trazer aos leitores um pouco mais das histórias dali. Consegui aprender bem mais do que supunha saber sobre o movimento. Obrigada!

    Fique a vontade para comentar sempre.

    Grande abraço.

  3. All Right querida, informações erradas ou não, seu texto ficou muito bom….
    Aguardo mais publicações…
    bjos

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