abr 262010
 

por Alexandre Carlomagno (alexyubari@yahoo.com.br)

Lançado em 1865 pelo professor de matemática Charles Lutwidge Dodgson sob o pseudônimo Lewis Carrol, o livro Alice no País das Maravilhas possui um extenso histórico de transposições cinematográficas. Desde 1903, no berço do cinema enquanto uma linguagem autônoma, em um curta de 8 minutos relegado ao completo esquecimento, uma versão de 1933 coprotagonizada por Cary Grant e Gary Cooper, passando pelo famigerado clássico dos estúdios Walt Disney em 1951 e até mesmo uma versão erótica no furor dos anos 70 e uma série de TV produzida no final dos anos 90, que trazia no elenco nomes da estirpe de Whoopi Goldberg, Ben Kingsley, Christopher Lloyd, Martin Short, Gene Wilder, Miranda Richardson entre tantos outros; não importa o formato ou o conceito de adaptação, a obra de Lewis Carrol sempre foi um fetiche para a indústria do cinema, pelo seu apelo visual em junção com a força de imagens cinemáticas. No entanto, inúmeros filmes e séries de televisão depois, o que será que esta versão do Tim Burton tem a acrescentar? Seria apenas uma forma de Hollywood aproveitar o frescor tridimensional do momento, ou este filme realmente tem algo a dizer?

Escrito por uma expert em dramas com alta dose de sacarose, a intenção da roteirista Linda Woolverton é a de elaborar uma espécie de continuação com aspirações do segundo livro,  Alice Através do Espelho, de 1871, também uma sequência do original – fora alguns elementos do primeiro que também são mantidos, ou seja, é um bizarro híbrido com pontuações originais. Na história, quando Alice é pedida em casamento por um asqueroso lorde, ela foge, seguindo o rastro de um coelho, e acaba despencando em um buraco, onde, mais uma vez, vai parar em um mundo do qual ela já não lembra mais, apesar de já ter visitado em tempos passados, quando ainda era uma garotinha. E se na obra Lewis Carrol havia alusões ao crescimento, da fase infantil para a puberdade, em singelos trâmites para descobertas sexuais que surgiam através de maravilhosas simbologias, tais como a passagem do tempo e a confusa percepção da protagonista ao novo mundo que emerge aos seus olhos, aqui tudo é completamente fulminado para dar espaço a uma trama barata e excessivamente lúdica, entoada por uma lição de moral capenga e pueril, digna do mais estúpido fio condutor de novela televisiva sem-vergonha. Basicamente acompanhamos Alice passar por diversas situações cujo real sentido para a trama nem mesmo ela parece perceber. E se isso já não fosse suficientemente enfadonho, o que dizer da obviedade empregada na resolução da história, cujos acontecimentos são possíveis de prever logo nos primeiros minutos?

Com uma história mambembe em mãos, ao menos poderíamos esperar certo apuro por parte da tão peculiar direção de Tim Burton, certo? Pois fato é que na década passada o diretor entregou alguns de seus piores filmes, e agora, no começo desses próximos dez anos que estão por vir, tudo promete desmoronar por completo. O mesmo criador de obras tão icônicas como Os Fantasmas se Divertem (1988), Edward Mãos de Tesoura (1990) e a obra-prima Ed Wood (1994) entrega-se sem o menor constrangimento a uma caricatura de seu próprio estilo. Estão ali a estética gótica-chic que tanto lhe apetece, a direção de arte rebuscada, evocando um expressionismo também na maquiagem e fotografia, os personagens bizarros, um papel interpretado por sua esposa Helena Bonham Carter (no caso, a Rainha Vermelha) e a tão habitual colaboração com o ator Johnny Depp e o compositor Danny Elfman. Tudo formando um amálgama (mistura confusa) indigesto de ingredientes outrora já consumidos – e tome cuidado para não regurgitar tal massa nauseabunda ao testemunhar uma dança esquizofrênica do Chapeleiro Maluco que Tim Burton coloca no final do terceiro ato, algo como um hip-hop movido a forças demoníacas – aliás, tome um maior cuidado quando a cena for reproduzida minutos depois, demonstrando uma total falta de bom senso por parte do diretor em não remover as sequências. Não obstante, basta percebemos o início do filme e todo o primeiro ato para termos uma ideia da condição mental em que se encontra Tim Burton: broxante em diversos aspectos e burocrático em sua concepção, ele apenas prepara o terreno para confirmar nossas convicções, infelizmente.

Denotando ainda certa carência de lógica em algumas sequências concebidas pelo roteiro, como quando Alice adentra a casinha onde repousa um monstro a fim de pegar certo objeto e, vendo seu fracasso, simplesmente resolve dormir ali mesmo, ao lado de um predador que quase dilacerou seu braço momentos antes, o filme é decepcionante em diversos sentidos. Contudo, talvez o filme seja de maior valia caso o espectador aprecie unicamente os efeitos visuais, já que estes são espetaculares, muitas vezes sendo impossível diagnosticarmos suas verdadeiras naturezas. Mas o mais importante disso tudo, é que Tim Burton aprenda algo com Alice e comece a refletir sobre suas faculdades mentais, na expectativa – nossa – de que, ao contrário de sua protagonista, ele realmente esteja em estado de repouso. Agora é torcer para que ele desperte em seu próximo projeto.

Página do autor: http://cinemorfose.wordpress.com/




Confira também

coded by nessus

 Leave a Reply

(requerido)

(requerido)

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>