“Em verdade eu vos digo”

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abr 022010
 

Confesso que nunca acompanhei a encenação da Paixão de Cristo, mas este ano foi inevitável. Depois de assistir a toda a montagem dos palcos em frente ao Theatro Pedro II nos últimos dois dias, e de ouvir os técnicos de som testar por horas a fio toda a aparelhagem que seria utilizada para reproduzir a crucificação, nada mais justo do que presenciar o resultado final.

Na véspera do evento os ensaios já atraíam olhares curiosos. A praça XV de Novembro, que habitualmente é movimentada, ganhou novos frequentadores. Na guarita, o diretor coordena os atores e grita: “Judas não. Não saia correndo desse jeito como um gato acuado. Saia, mas não de forma desesperada. Esse ainda não é momento de correr”.

Os microfones falham. A cada tom grave que os atores emitem, a caixa de som faz soar o alarme de um carro estacionado. Os objetos de cenografia ainda não estão prontos, os figurantes não sabem bem o que fazer.  Tudo indica que não vai dar certo.

A Sexta Santa, como de costume, é chuvosa, e essa não escapou à regra. É fim de tarde em Ribeirão. A garoa começa a cair sobre a terra. Timidamente as pessoas se achegam à praça, mas a chuva aperta, e na horinha marcada pouca gente está a postos. O microfone avisa: vamos esperar mais meia hora.

Enfim começa o espetáculo. A água, ao contrário do que se imaginava, não espantou, mas atraiu os tementes às grades de proteção. Vieram protegidos pelas arestas e lonas dos guarda-chuvas e sombrinhas.

De novo o diretor entra em cena, mas desta vez os orientados não são os atores, e sim os populares. “Pessoal, preciso pedir que fechem seus guarda-chuvas. Quem não puder, por favor, se afaste do palco, mas eles abertos só vão atrapalhar”.

A Paixão é encenada e começa a caminhada para o Monte das Oliveiras, que este ano foi representado pelas escadarias da Catedral Metropolitana, o que gerou certa insatisfação dos fiéis acostumados a caminhar até o morro do São Bento.

Atrevo-me a dizer que, mesmo atravessando um curto percurso, cujo ponto de partida foi a esplanada do Teatro, e que passou por um trecho da Rua General Osório e subiu a Tibiriça até chegar na Florêncio de Abreu, a caminhada emocionou quem a acompanhou. Jesus, ensanguentado pelas chibatadas dos soldados, arrancou de um fotógrafo que cobria o evento: “Nossa, que realismo”.

Fotógrafos, repórteres e guardas municipais formaram o primeiro batalhão para o calvário. Correria, gritos com pedidos de morte ao pecador. A população eufórica participou com pedidos de clemência ao homem. O que se viu pelas ruas centrais da cidade foi mais do que a representação da Paixão de Cristo, foi a população debaixo de chuva que acompanhou com emoção e fé uma das histórias da humanidade. Crianças, jovens, adultos e idosos. Gente simples, gente famosa. Mas ali todos aparentavam ser iguais, e pareciam temer alguma coisa. Só não sei se era o passado ou o futuro.

  One Response to ““Em verdade eu vos digo””

  1. Bela foto. Belo texto. Deus abençõe o Inconfidência Ribeirão por ter Will Parisi em seu meio.

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