mar 142010
 

Seu Odílio levantou cedo. Ferveu a água para o café, apanhou o jornal e chutou o gato velho que insistia em ficar deitado aos pés da mesa da cozinha. Nada de muita novidade no jornal. Política, futebol e violência, assuntos muitas vezes misturados na mesma notícia. Praguejou. Depois do café e da broa de milho com manteiga, vestiu-se e caminhou para abrir o portão.

Não podia esquecer o chapéu, o inconfundível chapéu panamá de fita cinza escura. Presente da esposa, quem trouxe foi a amiga dela que tinha ido ao Equador. Qual era mesmo o nome dela? Da amiga, não o da esposa, Lurdes, este ele se lembrava. Lurdinha, que falta ela fazia nestas horas. Sempre se lembrava do nome de todo mundo, até daqueles que Seu Odílio nem dava conta da existência. O segundo filho da filha mais nova da vizinha, por exemplo. Oito anos desde que Lurdinha se foi, completados em fevereiro. Oito carnavais sem alegria. Ela gostava de escutar as marchinhas no rádio, ele contentava-se em estar ali ao lado. De qualquer forma, o velho rádio da sala estava quebrado há uns quinze anos. Mas ele não se lembrava de nenhum carnaval sem a graça dela cantarolando marchinhas pela casa.

O chapéu, já ia se esquecendo de novo. Ao sair para a rua, não entendia como diabos o chapéu um dia pode deixar de ser peça usada no dia a dia. Estamos em Ribeirão Preto, pelo amor de Deus! O senso prático de Seu Odílio, pelo menos, fazia com que ele nunca abandonasse o hábito de usar chapéu. Mérito do implacável Sol que tanto gosta de exibir-se no céu azul desta cidade.

Bela manhã de domingo, Seu Odílio foi à praça do bairro. Gostava daquela praça, dos bancos antigos de madeira, bem diferente daqueles bancos feios de cimento que eram pintados cada um com uma propaganda diferente. Horroroso, o que uma propaganda de loja de construção tinha a ver com passear na praça? Era o seu programa preferido nas manhãs de domingo. Não que durante o resto da semana tinha muito mais o que fazer, chegava a passear por lá nos outros dias, mas as manhãs de domingo eram sempre mais prazerosas. Ao lado da praça ficava a igreja, que há alguns anos Seu Odílio não frequentava. Não porque tivesse entrado em agruras maiores com Deus, mas porque causa de uma briga com o padre. Discussão boba, mas que vai se acalorando cada vez mais quando o assunto é algo tão passional como é o futebol. O padre era palmeirense, e Seu Odílio era corintiano.

Houve um tempo em que ele ainda dispunha-se a pegar o ônibus e ir ao centro, encontrar velhos amigos para um café na Esquina do Pecado. Mas há alguns anos Seu Odílio diminuía a frequência destes encontros. Na verdade cansara-se dos assuntos. Lia o jornal e assistia TV, era bem informado, mas com o tempo foi perdendo a paciência para determinadas conversas. Política, não gostava de discutir desde a época dos militares. Doía pensar nos amigos e amigos de seus filhos que foram embora, às vezes para sempre. No futebol, já não fazia mais questão de ficar dando pitaco. Aliás nem tinha mais muita opinião, mal assistia a qualquer jogo por mais de 20 minutos. Interessava-se pelos resultados, mas quando o Timão não dava conta de ir pra frente, Seu Odílio nem se abalava muito. Não era um torcedor roxo. Os jogadores que são pagos pra isso mesmo, deixa que eles se preocupem com o time. A discussão com o padre fora uma exceção, por motivos de força maior. Rivalidade entre camisas as vezes são maiores do que pelejas entre Deus e o Diabo. Não, ele não tomava mais o ônibus para o centro no domingo. Somente durante a semana, de preferência uma vez por mês, para receber sua aposentadoria. E é claro que não era tão simples assim. Uma vez por mês, humpf, ninguém tinha esse luxo.

Ali, sentado no banco da praça à sombra da grande sibipiruna numa manhã de domingo, Seu Odílio observava. Mães passeando com suas crianças pequenas, as crianças grandes correndo e fazendo algazarra em volta delas. Casais de mãos dadas, de todas as idades. Algumas pessoas solitárias, velhos e moços, homens e mulheres. Mas Seu Odílio não se sentia sozinho, e esperava que todas aquelas pessoas também não se sentissem. Ele fazia parte de tudo aquilo, das pessoas passeando e vivendo suas vidas, das crianças crescendo e jovens se amando. Mesmo que fosse uma parte que sentia que já tinha cumprido seu papel. Como Lurdinha, a esposa. Ele a amava e sentia falta dela, mas aceitou sua partida, assim como ela aceitou a permanência dele. Seu Odílio respirou fundo para aproveitar bem o ar daquela manhã, enquanto observava o ciclo do mundo acontecendo bem ali na praça do seu bairro.




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