mar 212010
 

por Alexandre Carlomagno (alexyubari@yahoo.com.br)

Quem é vivo com certeza já deve ter ouvido falar que na televisão tudo é copiado, nada é criado. Pois bem, a máxima proferida pelo velho guerreiro Abelardo Barbosa, que também atendia pela alcunha de “Chacrinha”, resistiu à prova do tempo e hoje se tornou uma verdade incontestável. Aliás, mais do que isso, os anos que separam a morte do apresentador até os dias de hoje ajudaram a entesourar ainda mais esse dito ao ponto de transgredir tal ideia, afinal, atualmente, na televisão nada se cria e nem se copia, tudo se compra.

O documentário concebido por Nelson Hoineff chega com o intuito de atestar este conceito, e para tanto ele usa o formato não para desenterrar as raízes do Chacrinha – mostrar onde ele nasceu, morou, trabalhou e por aí vai -, mas sim, montar um espectro da TV nos anos 80 a partir das imagens do velho guerreiro e de um quadro de entrevistados para dar inveja a qualquer Marília Gabriela. Do “rei” Roberto Carlos, passando por Alceu Valença, Agnaldo Timóteo, Elba Ramalho e colocando a cereja no topo do bolo com as chacretes e ex-calouros. Sim, o time de pesquisadores do filme fez um trabalho exemplar na busca por ex-participantes, o que resulta em pérolas como o Manuel de Jesus, que categoricamente diz achar Roberto Carlos um b… – tornando-se, desde já, um dos meus heróis (quem mais tem colhões para dizer que o “rei” é um b…?).

O velho guerreiro tinha um peculiar espírito anárquico que se estendia pelos programas, com chacotas aos calouros, ou até mesmo humilhações; piadas nonsense (“sem sentido”, em inglês) ao som de solo de bateria; dançarinas em trajes mínimos esfregando as partes em closes nada discretos, e por aí vai. E é este clima que Hoineff capta tão bem ao deixar falhas em meio ao filme, como o já conhecido encontro de Biafra com um paraquedista, ou a briga de uma ex-caloura bêbada com uma bicha velha durante a entrevista. Aliás, é necessário ressaltar a decisão acertada do diretor em notar que a grande parcela de personagens interessantes são as chacretes, e por isso mesmo dedica um tempo generoso em declarações maravilhosamente sagazes – com destaque para a sequência em que coloca na conta os nomes de famosos com quem foram para a cama (Silvio Santos, Edson Celulari, Simonal, Chico Buarque, entre outros), ao mesmo tempo em que é triste constatarmos o estado depreciativo, tanto estética quanto profissionalmente, em que cada uma delas se encontra. É um forte nó de infelicidade e melancolia que é dado em nossas gargantas ao testemunharmos o debulho em lágrimas em que uma delas cai assim que desata a relação com um médico, no qual, claramente, ela depositava suas esperanças de algo melhor, ou quando ouvimos o sincero depoimento da Índia Potira, que revela sua negligência durante a juventude e a atração que tem por bandidos.

Essencialmente, “Alô, alô, Terezinha!” é um filme triste, amargo e revelador, mostrando que os artistas outrora brilhantes e famosos hoje encontraram a salvação e, ao que parece, uma última tentativa de prevalecer em suas existências ostracistas, na conversão para o Evangelho. Baby Consuelo dá conselhos religiosos enquanto entorna alguns copos de uísque e insere jargões bíblicos em suas músicas, ao passo que Nelson Ned mal consegue dar o tom correto na famosa Tudo Passará, de 1969, devido à tanta cocaína em tempos passados. Em determinado ponto, o documentário tenta em vão descobrir quem é a tal Terezinha da famosa frase, quando, na verdade, nós somos a Terezinha. Aberlado Barbosa, o velho guerreiro, o Ed Sullivan brasileiro engajado com o caos da comunicação, já nos alertava, lá atrás, sobre o imenso estado de hipocrisia propagadora de letargismo no qual a TV se transformaria. O pandemônio de entretenimento, que dialogava aberta e diretamente com o público, deu lugar a apresentadores e espancadores de mulheres milionários, com antecedentes criminais, arrastando uma pobre qualquer ao shopping para lhe dar um dia de princesa. No final das contas, nós ficamos com o bacalhau.

http://cinemorfose.wordpress.com/




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