O Trote

 Posted by at 11:18 pm  Artigos, T.I.
fev 222010
 

O ingresso do jovem na vida acadêmica é motivo de comemoração para praticamente todos os envolvidos. Afinal, foram longos períodos de estudo e dedicação, a dificuldade em se escolher um curso no qual exista alguma identificação, e para muitos, um momento de sair debaixo da asa dos pais e, pela primeira vez na vida, morar sozinho em outra cidade. O clima contagia não só a família e os amigos próximos do jovem calouro, mas também aqueles que por alguns anos serão seus companheiros e mentores da jornada universitária: seus veteranos.

O trote, como é conhecido o ritual de recepção aos calouros, tem suas origens na Idade Média européia, juntamente com o próprio conceito de universidade como a conhecemos hoje. Na época, os alunos ingressantes tinham seus cabelos raspados e suas roupas queimadas pelos seus veteranos. Mais do que uma brincadeira de mau gosto, o ato era uma medida de saúde pública, para evitar a propagação de doenças que o jovem calouro pudesse trazer consigo para dentro dos muros acadêmicos. Daquela época para hoje muita coisa mudou, mas o ritual de “passagem” para a vida universitária continua presente na maioria das escolas de ensino superior.

Muito se fala na grande mídia sobre o efeito nocivo do trote sobre as mentes inocentes dos recém-universitários. O caso mais conhecido é o do estudante de medicina da USP morto em 1999, durante uma brincadeira trágica na qual os veteranos não permitiam aos calouros que saíssem da piscina durante um churrasco. Um dos calouros não sabia nadar, e o pior aconteceu. Outros casos mais recentes envolvem obrigar calouros a comerem lama e fezes de animais, rolar sobre formigueiros e embebedá-los ao ponto do coma alcoólico.

O que estes casos tem em comum, além de terem ocorrido durante o trote universitário? A completa falta de bom senso. O que devia ser uma brincadeira torna-se abuso de poder, e a responsabilidade de um evento inglório – seja a humilhação ou a tragédia – é puramente dos veteranos que participaram daquela atividade. Isto posto, surge um movimento em diversas camadas sociais para por fim ao trote enquanto brincadeira. Esta ideologia é alimentada pela mídia que atiça os politicamente corretos ao mostrar a cada ano as histórias de abusos e humilhações que muitos calouros passam nas mãos de veteranos cruéis e sem noção. Bizarrices criminosas, às quais os responsáveis devem responder academicamente e na Justiça.

O trote solidário mostra-se uma alternativa saudável para as brincadeiras de mau gosto. Campanhas de arrecadação de alimentos, doação de sangue, jornadas de saúde em comunidades carentes, são ações que contribuem para a melhora da imagem das atividades de recepção aos calouros, além de aproximarem o meio universitário e a sociedade. Aliás, me pergunto onde foram parar estas iniciativas dentro da USP.

Mas e o trote festivo? As brincadeiras, a tinta, os gritos de guerra e os “pedágios”? Necessitam de serem extintos em prol de uma imagem de segurança e responsabilidade? Sinceramente acredito que não. O ritual de “iniciação” do calouro envolve diversos aspectos lúdicos, e a maioria dos próprios ingressantes na universidade esperam – e anseiam – por eles. Não podemos acreditar em um quadro pintado por alguns grupos, de hordas de universitários bêbados barbarizando jovens que mal saíram da casca do ovo. Há dois erros nesta interpretação: primeiro, a imagem do calouro como alguém completamente despreparado e sem condições de defender sua integridade. Não se deve “superproteger” o jovem, pois lidar com situações na qual ele deve se impor e dizer “não!” faz parte da entrada na vida adulta. Segundo, a visão dos veteranos como um bando de desalmados que só quer humilhar o calouro e mostrar que eles que mandam na parada, pelo fato de que estão ali há mais tempo. Para a quase totalidade deles – digo quase porque sempre há indivíduos completamente desajustados em qualquer grupo – o calouro é alguém a ser festejado e bem vindo. As brincadeiras do trote fazem parte desta festa, são situações que os próprios veteranos passaram quando ingressam a alguns anos no meio universitário.

Conclusão? Proibir o trote enquanto atividade festiva é não só um exagero, com também uma falácia. Uma vitória da ideologia politicamente correta e asséptica sobre o bom senso esperado de jovens que estudam e almejam uma profissão. A vida universitária é curta, apenas um período na vida de uma pessoa, e que se esvai mais rapidamente do que qualquer um gostaria. Claro que o trote solidário é bem vindo – aliás, devia tornar-se obrigatório. E claro que o trote tradicional deve ser constantemente discutido e organizado, para não só evitar, mas extirpar completamente as ações perigosas e humilhantes. Tudo dentro da lógica do bom senso, de não fazer com o outro o que não gostaria que fizessem com você.

Veteranos, sejam inteligentes. Pintem, brinquem e mandem o calouro trabalhar, mas não obrigue-os a nada que eles não queiram ou que achem abusivo. E não sejam vingativos, por favor. Se no seu trote você sentiu-se mal por algo que fizeram com você, não desconte nos alunos que estão entrando agora. Pelo contrário, dê uma lição de moral nos seus veteranos abusivos, mostrando como é possível brincar e ser amigável. E proteja seu calouro destes mesmos veteranos cruéis. Denuncie-os, se necessário. Aos calouros, primeiramente meus parabéns e bem vindos. Entenda que o trote não tem a intenção de fazê-lo sentir-se o mais baixo verme a pisar no solo universitário, pelo contrário. Sinta-se parte de uma grande comunidade que estuda e leva a vida acadêmica a sério, mas que sabe como ninguém festejar e manter o bom humor. Mas se por acaso não concordar com qualquer prática que impuserem a você, não tenha vergonha de dizer que não topa. Não se sinta mal por isso, é a sua identidade pessoal e os outros devem respeitar. E lembrem-se sempre que a maioria das universidades possui serviços de denúncia para trotes agressivos.

Bons ventos e boa festança a todos!






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  One Response to “O Trote”

  1. Tenho exatamente a mesma opinião. Triste é ver um punhado de gente que mal sabe o que é trote, nunca participou de um e afins, querendo julgar o “trote” como um todo, baseando seus “achismos” apenas em porntos fora da curva, como o caso do calouro morto na USP.

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