fev 122010
 

Parecia implicância, esquizofrenia ou cabeça vazia mesmo. Toda vez que perguntam minha profissão e eu falo “jornalista”, as pessoas arregalam os olhos ou, se pelo telefone, mudam rapidamente para a defensiva.

Hoje (12/02) aconteceram três situações em um curto intervalo, que não puderam passar despercebidas. A primeira: fui a um determinado médico pela primeira vez, e como em todo lugar, tem de se preencher uma ficha com os dados pessoais para consultas futuras. Eram duas recepcionistas. Uma estava preenchendo a minha ficha, a outra estava no MSN (aquele sintomático efeito sonoro das mensagens denuncia). Cada uma distraída a seu modo. Eis que vem a pergunta mágica: “Qual sua profissão?”. Eu, despretensiosamente digo: “jornalista”. Bate o silêncio absoluto. A recepcionista para de olhar no MSN, a outra que estava me atendendo parou também. Foram uns três segundos de duas pessoas me olhando quase que como se eu tivesse cometido algum crime épico. Por aqueles três segundos me senti um comparsa dos irmãos Cravinhos e Suzana von Richthofen. Maldito olhar acusador.

Ainda no mesmo consultório, quando o médico foi me atender, estava lá ele em sua anamnese (aquele momento em que o médico colhe o depoimento do paciente para começar a formular um diagnóstico) me perguntando o que aconteceu e tudo mais. Ele estava muito centrado fazendo suas perguntas corriqueiras, anotando tudo, e de novo, a pergunta: “Você faz o que da vida?”. Acreditando que ainda era implicância minha, respondi: “jornalista”. Pronto. Fim da anamnese. De novo o olhar incriminador que dura alguns segundos. Ali achei que ia ser expulso do consultório, mas ele “apenas” mandou eu tirar a camisa.

A terceira (acabou por ser benéfica!): por telefone, uma vendedora de cartão de crédito, daquelas que não tem medo de abusar do gerundismo. Mesmo após afirmar categoricamente que não estava interessado, a dita cuja começou a listar as cinco principais vantagens do produto, e lá pelo meio da segunda… batata: “Qual sua profissão Senhor?”. Após dizer a profissão, aquele silêncio desconcertante e um “tudo bem senhor, caso se interessar ligue para 0800…blá blá blá. Muito obrigado, estaremos aguardando sua ligação…”

Nas próximas, tentarei dizer uma profissão menos assustadora. Assassino de aluguel, terrorista, desarmador de bombas, etc.

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Para recordar, a edição 03 do Inconfidência Ribeirão de maio de 2009 (quando ele era impresso). Seção ‘Esquizofrenia Classista’:

Muitos acham que o Inconfidência Ribeirão é bancado financeiramente por algum político ou empresário. No máximo por um “paistrocínio” moderado e pelos juros cândidos e generosos do sistema bancário brasileiro. No meio de uma conversa sobre o tal senso comum em torno do veículo, obtivemos a seguinte resposta:

“Ah! mas isso é assim. Jornalista hoje é tido como língua de aluguel, né?”.

E o diploma, como vai?

  One Response to “Eu, criminoso”

  1. É meu amigo… Algumas profissões são estigmatizadas por excelência. Tão ruim quanto o rótulo do jornalista, acredite, é o do psicólogo. Pessoas que começam do nada a contar seus problemas, outras morrendo de medo de serem analisadas o tempo todo, como se o psicólogo tivesse o poder de entrar na cabeça dos outros quando quisesse.
    São profissões em tempo integral, mesmo contra a nossa vontade!

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