jan 192010
 

(Publicado originalmente na edição “11″, em setembro de 2009, segunda quinzena)

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Todos os dias, encontramo-nos diante dos mais distintos “universos pessoais”. A começar pelo nosso próprio “mundinho” e o dos nossos respectivos acompanhantes (parceiros, filhos, amigos) até o “mundo, mundo, vasto mundo” da mídia, de onde nos chegam infinitos mundos…
São todos distintos e ao mesmo tempo giram em torno de uma semelhança, mas isso não basta. Para fazer parte do jogo é preciso ser “normal”, seguir o padrão. É um fato: a sociedade e seus meios nos fazem crer que somos normais, tentam nos encaixar em um padrão com a finalidade de garantir a funcionalidade do sistema. Ao mesmo tempo, tentam nos fazer especiais, únicos, exclusivos – “Seja original e conquiste o mundo!”. O que me preocupa não é essa tensão existente entre o particular e o social (que tem sentido!), e sim a capacidade dos meios de manipular a sociedade, o homem, para fazê-lo acreditar tanto em sua “normalidade” como em sua “originalidade”, mesmo diante desse show de horrores que vivemos e marionetes que somos. O que o Monge diria sobre isso? (Flávia Rossi)

Ora, feliz é o ser humano, que hoje pode afirmar sua individualidade a plenos pulmões. Na história conhecida da civilização, nunca houve um momento tão voltado para a valorização individual como este que presenciamos. Somos únicos, especiais, e podemos escolher facilmente o que mais apetece ao nosso bem-estar, dentre inúmeras opções. Há quem se dê ao luxo de decidir até mesmo no que vai trabalhar, vejam só! Sim, feliz é o ser humano. Principalmente aquele que for ocidental, residir num país democrático, não ser ligado às minorias e, de preferência, estar financeiramente confortável. E possuir acesso à internet de banda larga, por favor.
Fato: o despontamento das liberdades individuais, da maneira como as conhecemos, anda de mãos atadas ao capitalismo. Somos o que consumimos. Os bens materiais em oferta são cada vez mais customizáveis, trazendo uma agradável impressão de destaque e de originalidade (“não tenha um celular igual ao de todo mundo, tenha um celular rosa que toca Madonna!”). E mesmo além das prateleiras das megastores, nossas opções não se esgotam. Culinárias típicas, estilos musicais, passeios turísticos, ideologias e religiões. Quase tudo que nos cerca encontra-se jogado no caldeirão da liberdade, no sopão dos múltiplos sabores que tomamos com prazer. Pois é assim que atualmente concebemos a forma de nos apropriarmos do mundo: consumindo. Seja um televisor de última geração, uma teoria discutida nos recantos acadêmicos ou uma doutrina espiritual. Dizemos “isso é meu, eu escolhi isso, é o que no momento devoro, vivo, respiro”. Havemos de consumir tudo que o meio nos oferece, pois somos apenas pobres seres incompletos, inundados de angústia e buscando um sentido. A sociedade, por sua vez, age como uma lança de duas pontas, que destaca e inibe o indivíduo ao mesmo tempo. Seja único, faça o que quiser, mas aja da maneira sensata, que é como todos agem. Por fim, acabamos consumindo nossa própria individualidade. Infeliz é o ser humano.

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