SOBRE LIVROS, LETRAS E RETICÊNCIAS…

 Posted by at 4:08 am  Sem categoria
jan 292010
 

“A alma dorme na pedra,

sonha no vegetal,

agita-se no animal,

e acorda no homem.”

Leon Denis

Inconfidência Ribeirão – Que tal o livro?

O livro é o maior instrumento que a gente tem para obter sabedoria, para obter experiência através das experiências que o livro narra dos outros, pra viajar, pra conhecer pessoas em biografias. Como uma biografia que eu amo de paixão é a do Yves Montand, aquele cantor francês [nota do editor: Yves, cujo nome real era Ivo Livi, nasceu na Itália mas mudou-se para a França logo na infância]. Foi um homem pobre, pobre, pobre. Nasceu e morava nas docas de Marselha e aos poucos ele foi se fazendo. Inclusive ele escreveu poemas e se tornou um grande cantor e uma pessoa muito amada na França.

Inconfidência Ribeirão – Existe uma discussão sobre o jornalismo ser uma forma de literatura. O jornalismo é um registro histórico de determinado fato em determinado espaço de tempo. Não seria então a biografia um jornalismo literário?

Eu acho que é. Tudo que se escreve é literatura. Mesmo que a pessoa não esteja imbuída (convencida) desse espírito. Escreveu é literatura. Mesmo que não tenha valor.
Mas, por exemplo, um livro que leio é aquele de Cabul, “O Livreiro de Cabul”. Você consegue ver como a vida é difícil por aqueles lados e como foi a luta de um filho de um livreiro para conhecer o mundo. E o pai queria que o filho só fosse livreiro, ele tinha várias livrarias. O filho queria sair do Afeganistão, conhecer outras coisas e ele queria aproveitar a viagem de um amigo pra ir ali, no próprio país. Então você percebe como é rígido aquele sistema de educação onde o pai que tem todos os poderes e a luta do filho para se libertar disso.

Brasil - É o país mais belo do mundo. Mas não sei se por conta da colonização portuguesa o povo ainda se encontra fechado pra muita coisa. Não existe solidariedade no Brasil. Existe em campanhas que aparecem na televisão. Aí sim, aí tem. Mas acho que falta muito ainda para o povo brasileiro aprender a ser solidário, verdadeiramente solidário. Escola – Importantíssima, quando bem direcionada  ela ensina, ao menos, a gente a buscar conhecimento. A sentir necessidade de conhecimento. Mas para que isso seja despertado na criança precisa de professores especiais.

Inconfidência Ribeirão – É um paradoxo (aparente falta de lógica), pois o pai proporciona a liberdade da imaginação (com os livros) e tira a física…

Pois é, um paradoxo. Mas isto talvez eu perceba mais para o final do livro. Porque eu não tenho tempo, o tempo livre que eu tenho eu escrevo. Anteontem eu fiz uma poesia, ontem eu já fiz outra.

Inconfidência Ribeirão -Você faz poesia diariamente?

Diariamente. Eu fiz uma hoje, pena que eu rasguei os rascunhos. Eu faço muitos rascunhos. Enquanto eu não encontro a musicalidade certa, as rimas que eu quero, eu não sossego. A minha maior fã é a senhora que trabalha conosco. Porque eu escrevo quando começa a clarear, na madrugada e aí acabo de manhã. Ela chega e logo vou à cozinha e leio pra ela. Ela diz: “Outra?”. Mas ela gosta de todas, não vale.

Inconfidência Ribeirão – Modéstia…

Não é não, eu falo a verdade!

Livro - Acho importantíssimo. Eu tenho vários na minha cabeceira.

Todo dia eu leio um pouquinho de um, um pouquinho de outro. É por isso que eu custo a acabar de ler todos!

Inconfidência Ribeirão – Porque a poesia é como o vinho, quanto mais você pratica, quanto mais você escreve, maior refino se obtém. Principalmente quando usa-se a ironia, que para mim é o tempero da poesia…

É o sal!

Inconfidência Ribeirão – E o livro que mais te acrescentou algo?

Foi a vida de Pablo Neruda, a biografia dele.

Inconfidência Ribeirão – “Confesso que vivi”?

Confesso que vivi! Adorei muito aquele livro, não sei se porquê conheci muito bem o Chile, inclusive onde ele nasceu em Tenuco e a casa que viveu em Valparaíso. Na viagem cheguei a vê-lo em uma praça de Valparaíso. E me arrependo, pois perdi uma excelente chance de falar com ele. Acho que tem outros, mas agora o que me veio a cabeça pra responder foi este… E o “Pequeno Príncipe”! E outro, o “Toi et Moi”, é de Paul Geraldy, um poeta francês. Ele fala nesse livro sobre o amor dele por uma mulher que ele não dá o nome, devia ser a esposa dele. Ela viaja e ele fala sobre a saudade, porque ela não volta… Muito interessante o livro, acho que são quinze poesias só. Ganhei comemorando oito meses de casada com uma dedicatória linda. “Por estes oito meses de felicidade…”

Inconfidência Ribeirão – Nossa! Com oito meses?

Com oito meses. A gente estava predestinado um ao outro.

Inconfidência Ribeirão – Essa certeza… lembro que falei uma vez para uma namorada que o homem acha que sofre quando ele pensa que busca a vida inteira o verdadeiro amor. Mal sabe ele que a pessoa que sente mais dor é a que encontrou. Pois sabe que o momento será finito e o próximo passo a gente não conhece e a dor desse desconhecido é muito maior…

Ele disse uma vez para mim que ele sentiu que ele não poderia me perder numa viagem, quando estávamos indo à Tremembé em um restaurante alemão para comer um pato na laranja delicioso. Então nós tomamos um ônibus no viaduto do Anhangabaú, já estava lotado e estávamos em pé. Teve um momento que o ônibus brecou inesperadamente e ele me segurou. Quando ele me tocou pela primeira vez no ombro ele disse “essa mulher vai ser minha”.

Poesia - A maneira que eu encontrei para desabafar. Ser humano Amo o ser humano.

Quando eu amo o ser humano eu amo, mas também quando eu odeio, eu odeio.

Inconfidência Ribeirão – Falando um pouco da letra, quando foi seu primeiro contato com a poesia?

Ah! Eu me lembro que eu devia ter uns dez anos, talvez onze. Escrevi um poema pra rosas. Porque morava em uma casa que tinha ao lado uma escadinha que você subia e um corredor com um tanto de terra onde minha avó plantava flores. Tinha amor perfeito, violetas e uma roseira. Tinha uma rosa cor de rosa linda e eu fiz uma poesia no meu diário… Que tive a burrice de rasgá-lo! Pois um dia eu cheguei em casa, procurei o diário para escrever e ele estava na mão de um primo meu, debaixo da cama lendo o diário. Fiz minha mãe pedir pra ele. Ela me entregou e eu rasguei. Devia ter umas três poesias nele. Eu escrevia, pois havia trem em Ribeirão e no quarto onde eu dormia eu ouvia o trem, e veja o que é a imaginação de uma criança. Eu balançava como se eu estivesse no trem, viajando…

Inconfidência Ribeirão – É isso que te estimulava?

Isso que me estimulava, o barulho do trem, o apito do trem.

Inconfidência Ribeirão – Reticências…

Tem uma coisa muito interessante em Baalbek [Líbano]. Existiu um templo dos tempos dos romanos acho. Havia uma pequena janela no teto deste templo onde em determinado dia do ano entrava o sol que refletia na deusa de Baalbek, uma coisa assim… Desse templo hoje em dia sobram só três ou quatro colunas de mármore. Você vê como naquele tempo eles tinham uma noção da matemática para calcular isso e de conhecer o movimento do sol, das estrelas…

Pecado - Ah, eu não acredito em pecado. Eu acredito em evolução. Eu acredito que quando uma pessoa peca é porque ela não tem a compreensão necessária de que aquilo ela fez não devia ter sido feito. As pessoas dão aquilo que elas trouxeram de outras vidas. Eu acredito em reencarnação e para mim a existência de Deus é um lento refinar.

Inconfidência Ribeirão – E os escritores brasileiros?

Eu tinha um livro de Olavo Bilac de contos e poesias que ganhei de um namorado, imagine você quando eu briguei com ele eu devolvi! Naquele tempo ainda tinha estas delicadezas.

Inconfidência Ribeirão – Hoje em dia além de não devolver os presentes ainda se pede pensão…

Pra namorado também?

Inconfidência Ribeirão – Configurou união estável tem direito…

Meu Deus do céu, vocês aí cuidado! Mas eu li alguma coisa de Guimarães Rosa, a impressão que eu tenho dele é de ser o químico das palavras, porque ele inventa palavras, ele cria palavras! Eu conheci a segunda esposa dele, que era muito amiga de uma grande amiga minha, uma moça tcheca. Essa moça era nascida em Curitiba, porque o pai dela foi cônsul tcheco nesta cidade. Quando a cidade estava surgindo, eles fizeram consultas a vários países que quisessem mandar imigrantes e lá da República Tcheca vieram muita gente. Ela chegou a voltar pra lá. Eu lembrei de contar a história dela porque é muito interessante. O pai dela conheceu o Guimarães Rosa quando ele ocupou algum posto lá. E quando estourou a guerra, a Segunda Grande Guerra, o Guimarães Rosa voltou para o Brasil e o pai dela pediu para ele trazê-la, cujo nome agora me foge.

Violão – Um instrumento bem brasileiro.

Inconfidência Ribeirão – Na escola, principalmente quando chega perto do vestibular, o contato que o jovem tem com a literatura é sempre forçado. Eles empurram o que alguém considera como o melhor que existe e obrigam jovens sem nenhuma estrutura literária, que estão para escolher o próprio futuro,  a lerem escritores densos, complexos. Isso acaba por gerar um desgosto pela leitura?

É, eles deveriam escolher livros menos pesados.

Amor - Só tive um.

Inconfidência Ribeirão – Como fazer o jovem gostar da leitura?

Eu tive uma experiência em um colégio. Uma parente que lecionava me convidou para falar com duas classes de terceira série [do Ensino Fundamental]. As crianças queriam conhecer algum escritor. Ela comentou sobre mim e eles ficaram entusiasmados. Eu fui, levei um dos meus livros. Expliquei como se escrevia, sobre versos, rimas. Um questionou “O que é rima?” – São palavras que combinam e por aí foi.
A professora questionou se eles, agora que sabiam o que era uma poesia, se gostariam de escrever uma. Todos quiseram. Ela distribuiu as folhas e eles escreveram. Tinham apenas oito anos, saíram textos fantásticos!

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