jan 292010
 

(publicada originalmente na edição 09 – agosto de 2009 – primeira quinzena)


IncRibeirão – Nome completo, idade…

Leandro Cegantini Ferreirinha, 23 anos.

IncRibeirão – Como nasceu o Ferreirinha?

Ferreirinha – Primeiramente da maneira técnica do sobrenome do meu pai. Mas o Ferreirinha pessoa vem de uma série de experiências, às vezes até totalmente contrárias umas das outras, ao longo de poucos anos muito bem vividos. Cursei até o segundo ano de Filosofia, quando estive no seminário, aqui em Brodowski.

IncRibeirão – Você veio de que cidade?

Ferreirinha – Esse negócio de vir de algum lugar é complicado. Estou indo e vindo o tempo todo. Nasci em São Paulo, com um ano e meio vim para cá e fiquei até os seis anos na cidade. Depois morei em um sítio em Serra Azul. Aquela coisa do menino da metrópole que vai morar numa cidade pequena, depois vai para o campo. Tive uma formação de roça, na lida, tirar o leite, tudo. Morei ali até os quinze anos, quando começou aquela coisa da adolescência. Não me dava bem com meu padrasto. Sempre fui o respondão, que queria saber o porquê de tudo. Não aceitava ser reprimido sem saber porque o estava sendo. E mesmo sabendo, se não concordasse continuava batendo de frente.  Existia também a figura da arte, porque sempre me expressei pelo desenho. Meu mundo particular.

IncRibeirão – Você criava esse mundo?

Ferreirinha – Isso.  Sentava com uma folha, um giz. Acabava o giz, desenhava na parede… aquela coisa bem Renato Russo “acaba o giz, tem tijolo de construção…”. Achava engraçado, pois na escolinha a professora dava aula de desenho e todo mundo fazia o famoso círculo com os traços se cruzando para fazer os homenzinhos.  E eu já queria fazer o corpo com volume, os dedinhos, e brigava com eles “Tá errado, não é assim!”. E a professora brigava comigo porque eu não podia fazer aquilo!

IncRibeirão – Era obrigado a desenhar igual aos outros?

Ferreirinha – É! Eles ficavam chateados por não conseguirem fazer, e eu também ficava por eles. Porque pra mim era tão natural… Não que me achasse melhor, não me sentia e até hoje não me sinto. Pelo contrário, acredito que isso faça parte da sociedade, os mais talentosos são reprimidos a agirem igual a todos por conta dos outros, para que não se sintam incapazes. Tem um misto    de repressão e admiração. Expressar-se é, de uma certa maneira, um desenhar.  Como aquela frase “Entendeu? Quer que eu desenhe?”. Quando uma pessoa desenha bem, se expressa bem, há pessoas que entendem e admiram. Já existem outras que não admiram ou entendem, e acabam por atacá-las indiretamente. Como a professora fazia, era muito mais fácil me colocar na fôrma do que fazer todo mundo crescer junto, evoluir.

IncRibeirão – Prefere fazer o fácil a fazer o certo…

Ferreirinha – Isso, eu compliquei um pouco a explicação, mas é isso aí.

IncRibeirão – E na adolescência, juventude?

Ferreirinha – Era revoltado. Anos 90, a molecada saía, brincava, ficava todo mundo na rua. Minha vida não era assim. Minha mãe reprimia muito essa questão: era estudar e trabalhar. Na hora de trocar experiências na escola, não conseguia falar com ninguém, porque meu mundo era tão diferente… Ouvia “Sábado fui brincar na praça, sábado fomos …”, e eu “Sábado eu fiquei em casa lendo…”. Era praticamente um nerd, não por escolha própria, mas por imposição. Como acreditava que não poderia ser nada mesmo, comecei a pensar em ser padre e fui pro seminário. Foi a melhor escolha da minha vida.  Não me tornei um, mas a experiência que tive… Lá eu era livre, existiam pessoas próximas da minha realidade, que conversavam comigo. E a expansão mental quando tive contato com a filosofia… Quem se propõe a estudar, se apaixona e não vive mais da mesma maneira, de jeito nenhum.

IncRibeirão – Em que sentido?

Ferreirinha – A possibilidade de passar a enxergar em profundidade. É tão bonito essa experiência que acontece a cada dia.  Um maravilhar-se novo quando se descobre que aquele lago é profundo, sobre aquela sociedade em que você vive, tudo tem entrelinhas. E para um garoto de 15 anos descobrir isso de uma hora pra outra… No seminário você tem contato dia e noite com padres que são psicólogos, professores de literatura, latim, grego. É uma realidade diferente de quem está fazendo colegial. Eu aprendi mais com a convivência do que com os estudos mesmo.
E depois do seminário?
Saí porque já não me bastavam só aquelas experiências. Foi uma coisa meio trágica. Tem a ver com o celibato, os hormônios estavam explodindo e é difícil na juventude desejar e querer tudo aquilo que todo jovem deseja e quer. Foi difícil. Acabei sendo tão fiel ao celibato que foi uma faca de dois gumes. No seminário, eu era o cara louco, todos lá eram já minipadres. Não me vestia com roupas boas e novas. Estava sempre com roupa surrada, largadão, aquela coisa grunge. Um seminarista grunge. Mas eu passava despercebido, se não me perguntassem ninguém saberia que era seminarista. Na escola, eu tinha muita amizade com as meninas. Porque eu não tinha aquele interesse, segundas intenções. Demorou muito para despertar minha mente para questões hormonais de afetividade no sentido de sexo. Até porque a sexualidade é muito mais ampla do que simplesmente menino e menina. É um leque muito aberto. Todos os relacionamentos humanos envolvem um nível de sexualidade. Mas eu chegava perto das meninas e queria absorver informação, descobrir como era o outro ser humano e elas se maravilhavam com isso. “Ah, que legal, ele não quer ficar só perto de mim porque sou bonitinha. Ele quer me ouvir!”. Curtíamos o mesmo tipo de música, essas coisas. Porque às vezes o cara se sente um ET e acha que tem que entrar em um seminário. E tem quem faça seminário e ache que deve ser um ET. E eu tentava quebrar isso. Isto causava desconforto entre meus colegas de seminário. Foi maldade mesmo, um complô. Armaram uma fofoca para o reitor sobre eu estar namorando. E o reitor era meu confessor, como um pai. Ele acreditou na fofoca, não em mim. Depois disso, fui embora. Passei um ano entre Serra Azul e Ribeirão, e depois fui pra São Paulo.

IncRibeirão – Com quantos anos?

Ferreirinha – 18. Foi a fase da loucura. Eu queria todos os meus 16 anos ali, nos 18.

IncRibeirão – Foi quando teve a banda punk?

Ferreirinha – Sim, teve a banda! A molecada lá era legal…

IncRibeirão – Qual era o nome da banda?

Ferreirinha – A banda não tinha nome!

IncRibeirão – Isso é punk!

Ferreirinha – Era punk, depois levamos hardcore. Galeria do rock direto, fui barman, garçom.

IncRibeirão – Morava onde lá?

Ferreirinha – No centro, numa mega república na Avenida Brasil. Eram uns cinco em cada quarto. Mas o síndico era nosso amigo. Tinha uma sala enorme, que às vezes era quarto. Era barman em duas boates, uma ficava aberta durante o dia e outra durante a noite. Eu revezava, dia sim e dia não em uma, e todo dia na outra.

IncRibeirão – Era normal você ficar acordado por mais de 20 horas?

Ferreirinha – Era uma loucura. A vida naquela época era boa, mas cansei rápido. Não tinha sentido, foi ficando vazia. Faltava uma experiência definitiva na minha vida. A filosofia que eu havia estudado não tinha sido suficiente, o seminário também não. Ficava aquela voz questionando “Você vai ser padre ou não?”.  Até porque, eu não saí, “me saíram” de lá. E eu, jovem, imaturo, impulsivo, nem vi se o barco furou mesmo. Na hora que falaram que estava furado, pulei na água e saí nadando. Voltei, trabalhei num bar, já estava com 20 anos.

IncRibeirão – Foi aí que você fez filosofia?

Ferreirinha – Sim, lá em Brodowski, em outro seminário. O seminário maior, onde comecei o estudo de filosofia. Dessa vez a experiência foi legal, porque eu entrei na boa, as pessoas já me conheciam. Os reitores eram mais tranqüilos, menos exigentes. Todo mundo ali já sabia o que queria, se você estava ali era para ser padre.

IncRibeirão – Você era cabeludo já?

Ferreirinha – Não! Era meio arrepiado. Já que não podia ser comprido, certinho é que não ia ser. Mas o legal do seminário é que você acaba tendo afinidade, intimidade com pessoas que na sociedade não se costuma ter. Porque na sociedade existem os grupos, as tribos, em que o que manda é a idade. Molecada na boate, pessoal mais velho em barzinho, e por aí vai.

IncRibeirão – E quando nasceu o Ferreirinha artista?

Ferreirinha – Nesta segunda vez que tive contato com a filosofia, tive mais informações. No seminário, a filosofia é uma coisa muito rica. Você termina a aula e conversa sobre isso no almoço, no seu quarto, antes de dormir, sonha com isso e vive 24 horas filosofia. E sempre acha alguém no refeitório, um professor tomando um cafezinho, com uma visão diferente ou igual a sua. Tinha um professor lá chamado Zé Luís. Sabia de tudo, grego, aramaico, e dizia que todos deviam ir além dos textos e das traduções. Daí a importância de se conhecer as línguas mortas. Porque quem traduziu interpretou alguma coisa. Ler os textos originais sempre é melhor. E a filosofia te obriga a buscar sentido, e toda vez que eu buscava, começava a desenhar. Meus cadernos eram só quadrinhos. Por exemplo, Zenão (filósofo grego) dizia que, para você chegar a algum lugar, deve percorrer a metade da metade do caminho, e depois a metade da metade, e por aí vai. Sendo assim, você nunca vai chegar a lugar nenhum. Porque sempre estará na metade da metade. Um negócio complicadíssimo.

IncRibeirão – Muito complicado!

Ferreirinha – Mas é um negócio tão legal. Tem uma historinha do Zenão que fala que a Tartaruga é mais rápida que o Aquiles (personagem da mitologia grega que tinha asas nos pés), o mais rápido da Grécia, porque ela não tem que correr a metade do caminho. Demorei pra entender, mas Zenão quis dizer que você tem que ir além da questão física. O Aquiles, por mais que ele corra, será o Aquiles. E é muito mais complicado você entender o Aquiles do que uma Tartaruga, que é um ser mais simples, mais fácil de entender. A metade da Tartaruga é menor que a metade do Aquiles. E eu fiz um quadrinho com a Lebre (representando o Aquiles) deitada na árvore, a Tartaruga passando correndo, só que a Lebre estava lendo um livro do Zenão. Depois eu escachei, e fiz o Aquiles correndo e a Tartaruga passando ao lado dele de skate. Enquanto todos liam textos e textos, eu via os desenhos e lembrava todo o raciocínio que tinha elaborado, e tirava dez na prova.

IncRibeirão – A primeira foi a do Zenão?

Ferreirinha – Não, a primeira foi do Heráclito. Os primeiros que você estuda são os naturalistas. A preocupação deles era explicar o mundo, os fenômenos naturais. Os mitos foram ficando para trás, e o homem buscava uma explicação mais satisfatória para as coisas. O Heráclito dizia que ninguém podia se banhar duas vezes no mesmo rio. Desenhei o Heráclito na beira do rio, enrolado na toalha, com o escovão e a touquinha, esperando outra pessoa que se banhava sair. Ou seja, as coisas são e não são ao mesmo tempo. O rio é, mas não é mais, igual a nós. Somos e não somos. O Marcelo que acordou de manhã, agora não é mais ele. Traz tudo que o outro tinha e acrescentou mais alguma coisa. Não se pode falar que não seja o mesmo, nem que não é. Você é e não é! Fiz também uma do Shakespeare, mas com uma caveira segurando a cabeça de uma pessoa.

IncRibeirão – Fui ou não fui?

Ferreirinha – É! E a da madrasta na frente do espelho “Espelho, espelho meu, existe alguém mais linda do que eu? – Existe e não existe, porque você é e não é ao mesmo tempo”.

IncRibeirão – Com esses quadrinhos você foi começando…

Ferreirinha – A aprender filosofia, me divertindo e gerando o artista dentro de mim. Libertando. Ele estava lá, preso, e depois de toda essa loucura, despertou. Mas sempre tinha aquela pressão de algo que fizesse ganhar dinheiro. Por isso, toda vez que eu falava que queria aprender a tocar violão, cantar, era reprimido. Tanto pela minha mãe como pelo meu padrasto. Uma pessoa muito honesta, justa e que eu gosto muito. Considero como meu pai até hoje, apesar de não ter muito relacionamento. Mas para ele, era legal ver essas coisas na televisão, agora ter dentro de casa uma pessoa que queria ser artista era estranho. Depois de toda essa experiência espiritual, da volta pro seminário, olhei para os meus desenhos e pensei que até ali havia feito só o que os outros me pediram. Não havia feito o que eu queria. Em São Paulo, naquela loucura, até pensei que estivesse fazendo o que eu queria, mas era mais uma dissociação de corpo e mente. Prazeres. E decidi fazer o que eu queria. Conversei com o reitor, foi muito boa a conversa. Saí do seminário empregado e fui trabalhar em uma fábrica de cerveja e fazer um curso de desenho artístico.

IncRibeirão – Você fez um curso então?

Ferreirinha – Descobri que este que fiz não serviu pra muita coisa, vou buscar outros porque preciso aprender técnicas novas. Mas depois de 6 meses, comecei a entrar em depressão. Porque na fábrica havia um estilo fordista de produção, repetitivo. E me perguntava se havia estudado tanto para fazer aquilo. Fui ficando louco! Um amigo padre, vendo minha situação, me chamou para ser sacristão e trabalhar em uma igreja. Consegui ficar um mês, porque tinha que deixar a igreja perfeita, e eu não dava conta. Era muito serviço. A praça onde ela ficava estava sendo reformada, e era pura terra. Entrei em crise! Não tinha mais tempo e estava trabalhando mais e ganhando menos.

IncRibeirão – Nada ajudava, nem você em um trabalho fordista e nem dentro da igreja!

Ferreirinha – Nada. E outro amigo padre me chamou para morar junto com ele. Foi uma experiência muito legal, mas como eu estava nesse torpor de fazer só o que eu queria, não me atentei a certos detalhes, pensei só em mim. Isso agrediu minha convivência com ele e chegou ao ponto de eu ter que sair da casa dele. Aluguei uma casa no centro e comecei a trabalhar em um callcenter, onde conheci um artista plástico. Tinha uma certa experiência com dança, teatro, então fui trabalhar como palhaço. Ele trabalha com isso, faz marionetes e eu aprendi a fazer bonecos. Faço bonecos de desenhos animados, essas coisas. Queria abraçar o mundo com as pernas. Acabei não fazendo nada. Descobri que precisei ir até um extremo para voltar um pouquinho. Entre pensar no outro, pensar em mim, e ter um equilíbrio entre essas duas coisas. Amar a Deus e ao próximo. Se você ama a Deus, você ama a si mesmo. Imagem e semelhança. Por isso, então, amar ao próximo. Ele foi tão esperto que se Ele falasse para se amar diretamente as pessoas não iam interpretar bem. Ele fez o contrário. Ame-se em Mim para que possa amar ao outro. Nesse “ame em Mim” você não corre o risco de pensar só em você. Se ama a Deus, você conserva o que Ele te deu. Sua vida, seu corpo, isso é se amar. É a minha maneira de interpretar essa situação. Existem outras maneiras, como o altruísmo incondicional de Gandhi, Madre Teresa, São Francisco… Eles se fizeram mal em muitas situações para ajudar o próximo. São exemplos que ocorrem de tempos em tempos para que possamos nos espelhar neles. Até porque, de uma vez não dá! Precisaríamos de 10 planetas Terra pra isso. A humanidade não está preparada para esse tipo de gente. Quando veio o maior deles, mataram!

IncRibeirão – Você teve uma reticência em enviar os quadrinhos para o jornal pelos problemas que já enfrentou. Como é se libertar disso e tentar confiar novamente?

Ferreirinha – A experiência de conhecer o jornal e entrar com os quadrinhos, dos quais eu já havia desanimado, me ensinou uma coisa. Tinha e tenho muitas idéias, me assumo como uma pessoa criativa, não é soberba falar isso. Só que não posso guardar essas idéias para mim, elas são para o mundo. Se alguém roubá-las de mim, elas são feitas pra isso, né? Se você as expuser e outra pessoa as usar, tomara que seja de uma maneira lícita. Colocando o nome embaixo. Tive um problema, enviei para um blog uma série de quadrinhos, e não me responderam. Após dois meses, fui entrar de novo, não sou muito assíduo de internet, e todos os meus personagens tinham ganhado idéias novas, tiras novas, como se eu tivesse dado meus personagens para eles. Não era isso que eu queria, lógico. Queria meu trabalho reconhecido, como todo trabalhador, artista. Quando te conheci, expus tudo isso para uma amiga que também é artista. Ela cria, dança, faz performances. Ela disse “Olha, minhas idéias são para o mundo. Se alguém as roubar, faço outras. Se alguém roubar, é até legal, porque a pessoa estará fazendo algo em cima do que já existe. Eu não: eu crio!”. E aqui, nós estamos trabalhando juntos. Até me considero um Inconfidente: Ferreirinha, o cartunista Inconfidente! É até legal, porque Ferreirinha tem uma alusão mineira e Inconfidente remete a uma certa história de Minas Gerais, com cabeças em pontas de estaca (risos)! Então, por mais que a minha cabeça possa estar em uma ponta de estaca de novo, prefiro colocar minhas idéias para todo mundo, como o cartunista Ferreirinha.

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