O exemplo vem de baixo

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jan 302010
 

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(publicada originalmente na edição 11 – setembro de 2009 – segunda quinzena)

União.

Nascer para o mundo e educar. São duas definições que, partindo das raízes etimológicas (estudo da origem e formação das palavras), podem ser aplicadas para duas palavras: criança e educação. Advindas do verbo latim educare, cujo significado é “criar com zelo”, a palavra pode também ser interpretada no sentido de “trazer à luz a ideia”, ou seja, moldar a ideia (ou a criança) e colocá-la no mundo.

Zelar é um verbo que sana qualquer dúvida da intrínseca ligação das crianças com a educação. Antes de substantivos, são dois conceitos que merecem o máximo de dedicação e atenção, pois quando mal cuidados, crescem deformados, sem rumo certo.

De acordo com a psicóloga Eliane Rossato Gomes, que trabalha com crianças, “a infância nos dias de hoje vai até os 11 anos de idade… infelizmente. Elas [as crianças] amadurecem cada vez mais rapidamente e perdem o ‘faz de conta’, o lúdico, que prolongam a infância”.

Eliane adiciona que “cada vez mais as crianças conseguem mais rápido o que querem”. Um mau sinal segundo a psicóloga, que faz um alerta: “Isso faz com que elas busquem outros meios de interação social e diversão, é aí que se tornam adolescentes precoces”.

Caroline Zago Rosa, também psicóloga e professora universitária, destaca como grande vilã da infância e precursor da adolescência precoce “a competição do mundo capitalista. Você cada vez mais cedo tem que aprender cada vez mais coisas para poder ser cada vez melhor. Hoje atribuímos às crianças horários de atividades quase igual a dos adultos e consequentemente, elas brincam muito menos”.

A cada problema citado no cotidiano dos jovens guris, surgem outros tantos para serem citados – e resolvidos. Um puxa o outro. Mas a base de todos eles é a atenção, o zelo dos pais pelos seus rebentos.

Com o tempo cada vez mais escasso, os pais deixaram de dar a atenção devida aos filhos. Tentaram preencher essa lacuna com bens materiais. Falharam. É o que confirma a psicóloga Eliane Rossato Gomes, que acrescenta: “Parte dos problemas que atendo aqui, acaba se diagnosticando quando vejo que os pais não se dedicam ao filho. [...] As crianças pedem por atenção. E não precisam de muita. Mesmo que os pais tenham pouco tempo, basta aproveitá-lo com qualidade”.

Caroline Zago Rosa endossa: “Sem dúvida isso é verdade [os filhos como reflexo dos pais]. Não precisamos culpar nossos pais ou família, mas se quisermos nos enxergar, é só olhar para o comportamento dos nossos filhos. Eles são nossos espelhos em valores, comportamentos, linguagem, respeito, ética, princípios… Me refiro tanto aos aspectos positivos quanto negativos.”

A luz das ideias

Um mundo de ideais puras e altruísticas. Assim é a maioria das crianças. A essência de humanidade que todos procuram quando se tornam adultos. Elas, que tanto querem ser como adultos, mal sonham que todos nós queremos ser como elas: livres.

Juliana, 10 anos, quer ser como sua amiga: fisioterapeuta. Gostaria de trabalhar em uma clínica onde pudesse ajudar as pessoas. Nas horas vagas quer colecionar os modelos de tênis da Polly e adicioná-los a uma lista que já conta com um hotel em miniatura da mesma marca. Gosta do pai por ele ser trabalhador, sustentar a casa e, de quebra, resolver as dificuldades que aparecem para a família.

Com os mesmos 10 anos, Amanda diz que quer ser como a amiga da mãe. “Ela é legal, compartilha as coisas e ouve os problemas da gente, pois a minha mãe não dá condições para compartilharmos os problemas com ela, nunca tem tempo”.

A garota sonha trabalhar na TV para ser vista por todas as pessoas e assim mostrar o seu talento. Quer ter fama acima de tudo. Depois disso quer os itens da coleção da Polly. Gosta da mãe por ela fazer tudo que pede. Além disso, ela faz o papel de pai e mãe. Polivalente.

Um pouco mais novo, com 6 anos, Gabriel (filho único) quer ser um cidadão como seu pai. Motivo: Um dia Gabriel quis deitar um pouco e, sonolento, acabou por dormir no sofá. Seu pai o ajudou. Pegou no colo e levou para a cama e ainda cobriu o garoto. É carinhoso. Isso basta para servir de exemplo.

Luíza, também 6 anos, quer ser como o pai de uma amiga: médico. Quer cuidar dos doentes e ajudar as pessoas. Se sobrar um tempo, quer trabalhar na TV. Como sonho de consumo pretende comprar uma loja de brinquedos. Se possível só o setor de bonecas (que fique claro).

O gremista Murilo, de 6 anos, quer ser como o pai: atencioso. Ele o leva pra passear em todos os lugares e ainda brinca com o filho quando tem tempo. Murilo se espelha de tal forma no progenitor, que pretende seguir a mesma carreira: policial. Quer também ser jogador de futebol e conciliar as duas profissões. Se conseguir, chegará próximo ao sonho de consumo, que é ter uma casa igual a do rancho Neverland, do recém-falecido Michael Jackson.

O Mundo gira.

Inspiração e imitação

Sobre a linearidade de aspirações, a psicóloga e professora Rosane Maria Machado Costa Aguiar explica que “enquanto criança, somos como esponjas, absorvemos tudo a nossa volta”.

“Conforme crescemos e abrimos nosso leque social, vamos pegando todos os exemplos à nossa volta, mas só assimilamos os que mais nos agradam. A partir deles nós os reproduzimos através do nosso próprio comportamento” reforça Rosane.

O processo – e o conceito – de imitação é estudado atualmente por várias correntes teóricas da pedagogia e psicologia. Suas primeiras citações datam de Platão, quando ele afirmou que toda a criação era uma imitação; mesmo a criação do mundo era uma imitação da natureza verdadeira (o mundo das ideias).

“Hoje a criança não sai mais na rua. Se tranca em um quarto e fica em um computador

sendo quem ela quiser em um mundo virtual…”

A Infância de tempos atrás

A liberdade e o acesso à informação trouxeram um leque de possibilidades. Deu chance às pessoas de terem uma gama de conhecimentos impossível de serem adquiridos pelo grosso da população de 20 anos atrás. Mas junto com as benesses, vieram os problemas, principalmente para crianças: “Hoje a criança não sai mais na rua. Se tranca em um quarto e fica em um computador sendo quem ela quiser em um mundo virtual que não restringe o que ela absorveu de ruim. Esse comportamento criará adultos com problemas de comportamento social sérios” diz Rosane Maria Machado Costa Aguiar, que também dá aulas de ‘Relações Humanas e Sexualidade’ a adolescentes.

Muitos se questionam: Qual a diferença (primordial) das crianças de hoje para as crianças de 30 anos atrás?
Para Caroline Zago Rosa, “antigamente tínhamos heróis admiráveis e adultos muito mais adequados do que atualmente. Nossos relacionamentos eram muito mais voltados para o que cada um era como pessoa, não para o que cada um tinha de material. Estávamos interessados em brincar e não em competir para saber quem era o melhor. Conhecíamos os limites e podíamos ser criativos nas brincadeiras”.




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