jan 272010
 

(publicada originalmente na edição 10 – setembro de 2009 – primeira quinzena)

Começa no Brasil uma nova postura frente a um hábito muito comum em quase todas as culturas humanas: o fumar. O início do século XXI vem sendo marcado por leis mais rígidas e a estabilização ou queda do número de fumantes quase no mundo todo. Há consenso, inclusive entre fumantes, que fumar em locais fechados (locais com 4 paredes e teto) é uma prática que traz um outro tipo de “vítima”: o fumante passivo. Nesse ponto, quase todos os fumantes que conheço respeitam bastante o outro em ambientes fechados.

Mas o ponto que me chamou atenção é que as plaquinhas de proibido fumar estavam colocadas até em locais não especificados pela nova lei (como por exemplo, as mesinhas de bares e restaurantes na calçada cobertas por toldos ou teto), como se estivesse acontecendo uma verdadeira perseguição aos fumantes. Assim, mesmo sentado em uma cadeira na calçada, que é publica, o fumante teria que dar dois passos ao lado e fumar seu cigarro (como se dois passos impedissem que a fumaça chegasse ao nariz do fumante passivo). O principio da lei é de proteger o não fumante dos efeitos maléficos da fumaça. Esse tipo de efeito é bastante estudado em trabalhos científicos, mas há que se ressaltar que os efeitos nocivos relacionados ao ato de se fumar passivamente estão ligados a ambientes fechados (fechados mesmo).

O problema de o estado proteger algum grupo de pessoas é que todos os outros contribuintes podem um dia se sentirem no direito de exigirem a mesma proteção. Existem também estudos científicos que comprovam que vários outros tipos de poluição (sonora, visual, luminosa e etc.) fazem mal a saúde, mas obviamente não chegam a ser associadas a tantas mortes quanto o ato de fumar. Mas o que esta acontecendo hoje é que os não fumantes que sentem um cheirinho de fumaça, já entendem isso como um absurdo, e voltam sua fúria para os fumantes. A nova lei antifumo é correta e plausível, o grande problema é que por pressa, ou outros interesses ocultos, sua divulgação não se fez tão clara e há o risco de se promover ainda mais propaganda do cigarro (por exemplo, fumantes nas calçadas e nas ruas) e brigas entre grupos (fumantes e não fumantes), além da muita confusão e prejuízo nos estabelecimentos comerciais.

A nova lei, entretanto, me faz pensar que a tolerância é algo fora de moda nos dias de hoje. O não fumante diz: “Eu tenho o direto de respirar um ar limpo”; o fumante diz: “Eu tenho direito de respirar fumaça”, e ambos estão errados. Nesse caso há uma confusão entre direito e gosto pessoal. O não fumante agora tem por lei, ambientes livres do fumo, como ambientes fechados públicos e privados, de modo que a fumaça não se concentre e não exerça algum efeito nocivo. O fumante tem o direito agora de fumar em áreas abertas (áreas em que há possibilidade do ar circular, pelo que entendi, com no máximo uma parede e um teto).

Interessante é pensar que as sociedades elegem, de tempos em tempos, alguns vilões. Hoje é cigarro, no tempo do nazismo eram os judeus. Hoje beber cerveja está permitido, amanha pode ser diferente. Procura-se atacar objetos (cigarro, cerveja etc.) e esquecemos de atacar o verdadeiro problema, que está dentro de cada ser humano. Vejo no futuro uma sociedade engessada por leis proibitivas, enquanto seus integrantes se odeiam uns aos outros, pela falta de tolerância e pela pseudo-segurança dada por um estado paternalista, que considera os cidadãos simplesmente com vítimas e vilões sem direito de escolha e ação.

INFORME-SE: www.leiantifumo.sp.gov.br

Luis Fernando S. de Souza Pinto é biólogo, psicanalista e faz parte do Grupo Verde (grupo de divulgação e popularização da ciência).
email: luisfernandossp@gmail.com / blog: www.sinapseoculta.blogspot.com




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  One Response to “Nova lei antifumo em São Paulo cria vítimas e vilões”

  1. maneiro ae

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