jan 212010
 

(publicada originalmente na edição 5 – junho de 2009 – primeira quinzena)

Na semana do dia do trabalho, cobrindo uma pauta a respeito do feriado, deparei-me com dois garotos trabalhando pelo calçadão da cidade e resolvi entrevistá-los. Surpreendeu-me a resposta que recebi quando lhes perguntei a idade; ambos com apenas 15 anos, isto é, abaixo da idade mínima laboral no Brasil. Eles não eram vendedores ambulantes, mas sim estavam empregados por um estúdio de fotografia. Seguindo a entrevista, contaram-me que jovens como eles são aceitos com freqüência no trabalho, pois acarretam menos gastos aos patrões, além de não exigirem um contrato legal que lhes permita todos os benefícios dos quais têm direito. Logo no momento discordei da situação que se passava, pois a julguei exploração. Curioso que, dias depois, para me deixar confuso, fui imbuído de escrever um artigo e recebi para tal o texto “Um soco no estômago”, de Marcos Cintra, que me apresentou um outro lado da questão: a atividade, como o trabalho para adolescentes, pode afastá-los das condições de marginalidade.
Neste ponto a trama se complica. Como impedir que a linha tênue entre atividade de inclusão social e exploração se rompa? Encarregar os governantes dessa responsabilidade é fácil, já que se espera que eles resolvam tudo, afinal, “a culpa é dos políticos”. As implicações presentes aqui não se restringem apenas a o que o governo pode fazer. A fiscalização existe e tenta agir da melhor maneira possível, mas dentro de um panorama de casos tão peculiares fica muito difícil distinguir em que situação intervir e não cometer equívocos. Escolher um acontecimento avulso e generalizá-lo não basta para resolver a situação. Não se pode afirmar ao certo se uma criança, por viver na favela, se tornará traficante ou viciada em drogas. Vale lembrar que em grande parte encontramos jovens de classe média/alta e com todas as oportunidades na vida, escolaridade e trabalho, mas mesmo assim seguem por um caminho, digamos, “desapropriado”.
Por essas razões, julgo que a questão se faz um tanto quanto mais complexa e que os prognósticos geralmente dados para resolvê-la não atentam realmente para tal profundidade. Concordo com Marcos Cintra no ponto em que, se não podemos resolver o caso por completo, podemos, nós “pequenos”, tentar amenizá-lo. Já são realizados hoje projetos que qualificam jovens discriminados para o mercado de trabalho, não lhes transformando apenas em joguetes nas mãos dos empresários, mas em profissionais dignos. Não é ilícito caso o jovem fique sob a condição de aprendiz, é admissível que adolescentes trabalhem sob o Contrato de Aprendizagem. Acredito que aqui caia bem: “De grão em grão…”.

Willian da Silva Rodrigues

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