jan 222010
 

(publicada originalmente na edição 8 – julho de 2009 – segunda quinzena)

As universidades públicas no Brasil têm um cheiro de passado para mim. Assim que passei no vestibular, imaginava um local onde os intelectuais se formavam, onde as artes inflamavam as relações humanas e um local com pessoas interessantes. Assim, um novo país se formaria baseado na busca da verdade e do questionamento cientifico.

Engano meu. Minha disposição para ingressar em uma universidade pública se deparou com um cenário avassalador. O mesmo tipo de gente que frequentava a escola, o terceiro colegial, estava lá, na USP. Não houve grande mudança. E as pessoas, as conversas, as roupas, o jeito de falar, as festinhas universitárias eram exatamente as mesmas que das universidades particulares. Assim, aprendi desde cedo que eu possuía em mim um fantasma, uma idéia primitiva e passada, uma idealização do que seria uma universidade para mim. E creio que esse fantasma também esteja bastante presente em funcionários, alunos e professores das universidades públicas.

A greve atual (2009), mais uma vez é justa em seu pressuposto, mas como sempre, aquele “fantasminha camarada” vem cutucar os manifestantes como se dissesse: “Olha lá! Eles estão jogando bombas em você! Você não vai fazer nada? Lembra da ditadura militar? Você vai ficar parado?”. Agora, pense nesse fantasma coletivamente, soprando essas palavras dentro da cabeça de cada manifestante. É claro que os pacíficos manifestantes entraram em confronto com a PM, como mostrou a mídia. Penso que a greve é um direito do trabalhador, mas a vejo como uma ferramenta ultrapassada. Como apertar parafuso com uma faca: Dá certo, mas seria melhor uma chave de fenda.

A faca

A faca seria um desses métodos arcaicos, como uma greve, que por constituir um direito do trabalhador, acaba sendo confundido como o único método para fazer valer as exigências da classe. Mas será mesmo a greve a única maneira de gritar e exigir reconhecimento e aumentos salariais? Seriam as bombas a única maneira de revidar as bombas dos policiais?

A chave de fenda

Experimente fazer isso. Pergunte para o povo que se engalfinha nos ônibus e que anda apressado nas ruas, que ganha perto de um salário mínimo (maioria da população) se eles sabem o que é a USP. Creio que terá respostas interessantes. Uma vez, na Faculdade de Direito do Largo São Francisco (USP), uma senhora me perguntou se ali era a faculdade. Eu, embora interiorano, respondi com autoridade:
- Aqui é a faculdade de direito.
A senhora pensou um pouco e disse.
- “Mas quanto paga pra entrar aqui?”
- Nada, aqui é uma faculdade pública.
A senhora fez uma cara de interrogação e então percebi que não entendia o que era essa tal de… “Pública”, então, acrescentei.
- Todo final de ano tem vestibular, ai a senhora faz a inscrição, faz a prova e estuda aqui. Tudo grátis!
Dessa vez fui ao ponto, acho; mas ela disse:
- “Ahhh… Sabe, é pro meu sobrinho…”
Então pensei, que a USP, as universidades públicas de maneira geral, são desconhecidas por uma boa parcela da população e que eu fazia parte de um minoria privilegiada neste país torto.
A Solução: a chave de fenda seria a divulgação em massa de tudo que se produz nas universidades, trazendo o Brasil para dentro das universidades, de diversas maneiras, para que elas passem a ser realmente prestadoras de serviços à população e não um poleiro arcaico de pombas gordas e preguiçosas. Que a carapuça sirva!

Luis Fernando S. de Souza Pinto é biólogo, psicanalista e faz parte do Grupo Verde (grupo de divulgação e popularização da ciência).
email: luisfernandossp@gmail.com / blog: www.sinapseoculta.blogspot.com

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