jan 292010
 

(Publicado originalmente na edição “4″, em maio de 2009, segunda quinzena)

O especialista em medicina chinesa dedica sua semana à clínica, e os finais de semana para a solidariedade. São dois cômodos no Jardim Salgado Filho I, alguns voluntários e muita vontade de ajudar. Gustavo de Lazzari Bessa, formado em Musicoterapia pela Universidade de Ribeirão Preto, foi para a China em 2000 e estudou com os melhores mestres de acupuntura do país através da Universidade de Tianjin. Atualmente ele cursa o 4º ano de psicologia e como diz, está em uma “constante busca aprimoramento profissional e espiritual”. Fundou a ONG CASAAVIDA e precisa de ajuda da população para dar continuidade ao trabalho.


Leonildo Trombela Junior – Gustavo, fale um pouco de você…

Gustavo Bessa – Eu trabalho com áreas da medicina chinesa desde 1995. Antes mesmo de fazer algum curso específico para isso, eu já atuava na área de reflexologia, que é o Tui Na dos pés, onde se trabalha o corpo todo pela planta dos pés. Logo após estudei em 1998 com o Prof. Marcelo Pereira de Souza, o introdutor da auriculoterapia no Brasil. Trabalhei com relaxamento, técnicas de visualização, respiração, aromaterapia e cromoterapia. Em 2000, fiz um curso intensivo, na Universidade de Tianjin na China, de Especialização em Medicina Tradicional Chinesa com formação em Acupuntura, Mocha Terapia e práticas de Qi Gong. Essas foram minhas experiências iniciais.

Inconfidência Ribeirão – Fale um pouco da medicina chinesa.

Gustavo Bessa – Na medicina chinesa tem áreas no corpo que equivalem à totalidades do organismo. Tanto no aspecto físico, quanto psíquico. Por exemplo, na planta dos pés existe o mapeamento do corpo todo. É um micro sistema do macro sistema que é o organismo. Costumo dizer que o funcionamento dos pés é o equivalente a um teclado de computador, onde você dá um toque e vem a resposta no monitor. Nos nossos pés, quando fazemos certos movimentos, esses estímulos trazem tanto respostas em nível cerebral quanto energético, este segundo que é o foco da medicina chinesa.
No ensinamento das técnicas se preza muito pelo mestre, e não tanto pela instituição. Lá tive aulas com o Dr. Liu Gong Wang, um dos principais nomes da medicina chinesa, que ganhou alguns dos principais prêmios de medicina de lá. Ele é o autor dos três principais livros usados pela medicina chinesa. Inclusive foi uma surpresa ter aula com ele, nem imaginava que ele seria um dos meus professores.

Inconfidência Ribeirão – Como é seu trabalho Jd. Salgado Filho I?

Gustavo Bessa – Iniciamos há três anos e meio um trabalho na área da saúde; Eu, minha esposa Juliana (também médica) e minha irmã Aristela (administradora de empresas). Começamos com dois cômodos que conseguimos com a Dona Madalena, uma das líderes do bairro, que emprestou o espaço para nós. Atendíamos todos os fins de semana uma maioria de adultos e algumas crianças que os pais levavam. No começo, os métodos de tratamentos eram feitos por acupuntura e acupuntura magnética (a mesma técnicas só que sem agulhas) via auricular (pelas orelhas). Às vezes não usava agulhas, usava sementes de mostarda e vaccaria.
Durante esse trabalho, percebemos que as crianças passavam muito tempo ociosas no quintal da Dona Madalena, chegando até a enrolar papéis para usar como bola. Mexiam com sucatas e inventavam brincadeiras. Daí começamos a ver que a necessidade das crianças serem orientadas e tratadas era muito maior. Foi aí que minha irmã Aristela, que não é da área da saúde, começou a cuidar dessas crianças. Começamos com 20 crianças. Dávamos café da manhã e um sopão na hora do almoço, tudo servido nas dependências da Dona Madalena.
Completamos um ano trabalhando com essas crianças, até que perdemos o espaço, pois a proprietária precisou dos cômodos para uso pessoal.

Como ajudar:

ONG CASAAVIDA

(Comunidade de Apoio a Saúde, Alimentação e Alfabetização)
Banco do Brasil:
Agência 2891 – 6
Conta 25077-5
Telefones: 16-3911-2055 ou
16.3011-2365

Inconfidência Ribeirão – Como ficou o projeto?

Gustavo Bessa – Ficamos esperando por três meses algum local para prosseguir o trabalho, até que a uma quadra dali uma igreja desocupou um salão, o qual nós estamos ocupando há dois anos desde então.
Atualmente, nós fundamos o espaço como CASAAVIDA (Comunidade de Apoio a Saúde, Alimentação e Alfabetização), conseguimos registrá-lo como ONG e não temos qualquer lucro material. Já atendemos mais de 100 crianças da região do Salgado Filho I.  Oferecemos apoio pedagógico, atividades artísticas e culturais, festas em datas comemorativas, levamos contadores de histórias, tudo isso com ajuda voluntária, que varia de 6 a 8 pessoas.

Inconfidência Ribeirão – Como a ONG se mantém?

Gustavo Bessa – O que mantém a CASAAVIDA é o bazar que realizamos com a ajuda da população e o trabalho voluntário do pessoal do Fundo de Responsabilidade Social do escritório Brasil Salomão. Quem nos ajuda é a dona Teresa que está sempre presente durante os dias de semana, já que só podemos ir lá aos finais de semana, ela atua como se fosse uma zeladora do espaço. Mas esse espaço nós também perdemos, tivemos que entregá-lo no último dia 16 de maio. Todos eletrodomésticos, livros e móveis estão provisoriamente na casa de uma voluntária e, mesmo assim, existe um prazo, não podemos deixar tudo lá o tempo que quisermos.

Inconfidência Ribeirão – E o prosseguimento do trabalho, como fica?

Gustavo Bessa – Temporariamente, o atendimento será feito na Escola Municipal Honorato de Lucca, pois conseguimos que a Prefeitura cedesse duas salas para realizarmos nosso trabalho, mas mesmo assim, em breve não teremos lugar para colocar nossas coisas.
Estamos em busca de uma ajuda, principalmente do setor privado, para que possamos angariar fundos para comprarmos um terreno e fundar o espaço. Já procuramos residências para aluguel, mas o tamanho das casas não comportaria as quase 100 crianças que atendemos. O ideal seria fazer um galpão para dar conta.
Outro segmento que não pode perder a continuidade é o convênio de trabalho psicológico com a UNAERP que faço sob supervisão dos meus professores, que graças ao resultado positivo que gerou, a Universidade demonstrou interesse em ampliá-lo ao longo do tempo. Apesar de atender só cinco crianças nesse projeto psicológico, espero que a coisa cresça e que possamos atender as quase 100.

Inconfidência Ribeirão – O que o levou a fazer esse trabalho?

Gustavo Bessa – Eu e minha esposa acreditamos que o ser humano só é completo quando ele se realiza em todos os aspectos. O ser humano, independente de religião, é um ser físico, energético, emocional, mental, social e espiritual. Acreditamos que trabalhar o lado mais sutil do ser humano é trabalhar sua própria espiritualidade, e espiritualidade independe de religião. Ajudar o próximo é na verdade, contribuir com a própria evolução.
As pessoas necessitadas são pessoas que às vezes nos trazem um retorno emocional e afetivo tão grande, que elas não têm ideia do bem que fazem a nós. Nossa relação é de troca, não somos só nós que oferecemos algo.
Mesmo que eles sejam carentes de bens materiais, de conhecimento acadêmico e cultural, eles têm muita coisa para ajudar. Eles são solidários, humanizados. Lá é normal ver mães criando o filho dos outros, uma pessoa ajudando a outra. No nosso caso, podemos deixar qualquer objeto de valor lá que ninguém mexe, pelo contrário, eles ajudam a tomar conta.

Inconfidência Ribeirão – Não se vê muito isso nas camadas mais abastadas…

Gustavo Bessa – Pois é, existe o preconceito de alguns setores da sociedade, uma visão pejorativa das camadas mais baixas. Não conseguem acreditar que os mais pobres possam ter estrutura familiar, quando na verdade eles têm – ao modo deles.
Foi nesse dia a dia de ajuda ao próximo que evolui meu lado emocional. Aprendi a ter mais compaixão e ser compreensivo; Duas características essenciais no meu trabalho clínico. Além disso, desenvolvi minha empatia, uma qualidade que facilitou consideravelmente a forma de ver cada paciente, entender os anseios e dores de cada um. Pois se eu não conseguisse entender a dor do outro, como eu poderia ajudar essa pessoa a melhorar? A minha recompensa é essa evolução espiritual, que também faz com que revejamos nossos conceitos de vida.

  One Response to “DA CHINA PARA A PERIFERIA – com Gustavo de Lazzari Bessa”

  1. GOSTEI MUITO DO APOIO E GOSTARIA DE MANTER CONTATO TRABALHO COM MASSAGEM DE SHIATSU E ACUPUNTURA

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