jan 292010
 

(publicada originalmente na edição 7 – julho de 2009 – primeira quinzena)

Filosofia que vem, não apenas de Atenas, mas diretamente do Olimpo. O filósofo Luiz Rufino dos Santos Júnior transmite ao Colóquio desta edição a digna qualidade de Ágora (Praça principal na constituição da cidade grega durante a Antiguidade Clássica) ao “palestrar” através da esfera pública do Inconfidência.

“Estamos num caminho sem retorno, a decadência final da civilização.”

“Estamos num caminho sem retorno, a decadência final da civilização.”

Inconfidência Ribeirão – Hiperdemocracia, o que é isso?

Luiz Rufino – Hiperdemocracia é permitir voz a todos (como nos EUA). A democracia é tão benéfica que você tem que tomar cuidado para ela não se auto prejudicar. Porque quando você cai no discurso de dar voz a todo mundo, você “plasma”, vira tudo igualitário. Uma “cuia” fica igual a Beethoven. O direito de fazer uma cuia e achar que isso é arte é o mesmo que se comparar a uma sinfonia de Beethoven. Daí qualquer coisa é cultura.

Inconfidência Ribeirão – Não seria uma “pseudo-democracia”? Onde certas coisas são ovacionadas para que as verdadeiras não apareçam?

Luiz Rufino – O mundo vive a hiperdemocracia. O que acontece? Aí está o perigo. É uma visão aristocrática da história. O Nietzsche ttem essa visão, o Jose Ortega y Gasset tem essa visão, o Aristóteles tem essa visão… O sonho iluminista de que você pode educar todo mundo acabou, faliu, simplesmente não dá para educar todo mundo. Por que países com educação melhores que a nossa, como a Itália, escolheu-se o Berlusconi? Lá eles não têm educação melhor do que a do Brasil? E os Estados Unidos? Eles escolheram o Bush. Na própria França escolheram o Sarkozy.

Se você observar, nós temos um aumento de população no século XIX e no século XX que não houve em nenhum momento da história. Do século XV ao século XVIII, tinham 180 milhões de habitantes na Europa. De 1800 até 1914, com a evolução científica, principalmente na área biológica, nós passamos dos 440 milhões de habitantes lá. Esse aumento de população traz um dos fenômenos mais assustadores que a humanidade já viveu: a urbanização. Antes disso só Roma tinha passado por essa situação.

A decadência de Roma está intimamente ligada ao processo de urbanização. Enquanto o aristocrata vivia no campo, ele servia de exemplo aos demais. A partir do momento que ele começou a migrar para a cidade, perdeu-se o senso de privacidade, a intimidade. A cidade é a selva. Associe isso à urbanização européia dos séculos XIX e XX, você acaba por ter uma inversão de valores.

Antes você tinha um aristrocrata (entenda aristocrata como um cara que se esforça, não aqueles parasitas da população que não fazem esforço algum) que servia de exemplo, você docilizava as massas. Só ver Júlio César, ele era um exemplo, ele docilizava a massa, ela olhava para ele e dizia ‘Eu quero ser igual a aquele cara’.

Inconfidência Ribeirão – Lula?

Luiz Rufino – Então, mas o Lula é o líder das massas, quem disse isso foi o jornalista, consultor político do Estado de São Paulo e professor da Universidade de São Paulo Galdêncio Torquato. O Lula é o líder das massas. Mas aí é que está a questão. Você tem a inversão de valores a partir do momento que você perdeu a exemplaridade. O professor hoje não é exemplar, é mal formado. Nunca leu clássicos, nunca pegou um Nietzsche na mão. Você pega um professor doutor e ele não sabe o que é isso. Mas isso é outro assunto. Então vocês perdeu a essa exemplaridade,  você começa a se pautar por quantidade, é a massa, que pressionam o Estado. Nessa pressão desmedida, as massas passam por cima de qualquer interesse individual que seja um pouco mais elaborado. É isso que chamo de hiperdemocracia, você dá voz a todo mundo.

Inconfidência Ribeirão – Existe algum modo de neutralizar essa hiperdemocracia e voltarmos à democracia onde são eleitos alguns para ter voz?

Luiz Rufino – Não. Isso não é só um problema teórico. É um problema real. Estimativas para 2050 dizem que teremos 9 bilhões de habitantes. Com isso temos o problema da subida dos oceanos, que se acontecer, o santista virá morar na porta da nossa casa. Quais as conseqüências disso? As mais terríveis possíveis. Além disso, terão outros 2 bilhões morrendo de fome sem lugar para obter o próprio alimento no mundo.

É um caminho sem volta. Estamos num caminho sem retorno, a decadência final da civilização. O livro mais importante dos últimos tempos é “Além do bem e do mal” do Nietzsche. O conteúdo mais importante desse livro é ‘A crítica da idéia moderna’ que é a crítica do sonho Iluminista, que podemos educar todo mundo. Nele já é dito que a nossa civilização é decadente, sem retorno. Ortega y Gassé vai pegar essa visão e compreender isso como ninguém. Sou realista e fatalista como ele, não tenho nenhum romantismo de pensar que haverá volta.

Inconfidência Ribeirão – Não há salvação para a civilização?

Luiz Rufino – Deus está morto. Nós matamos Deus quando derrubamos Luís XVI. A grande representação da divindade havia caído quando matamos Luís XVI. Junto com a cabeça dele caindo da guilhotina nós impomos a religião dos homens, a ciência. Ela (a ciência) por si só não traz as respostas.

Inconfidência Ribeirão – Trocamos um extremo pelo outro então?

Luiz Rufino – Então, porque daí você cultua o homem, e aí é que está o problema, você cultua o homem. Apesar do culto ao homem ter dominado, ainda vemos rastro de divinização similares ao de Luis XVI. Veio Hegel e divinizou o Estado. Só vermos os juristas que tratam o Código Penal como um livro sagrado. Eles o divinizam achando que a legalidade dá conta dos problemas da sociedade. Isso não dá certo, pois os próprios juristas dos dias de hoje são mal formados, não têm cultura geral. Por exemplo, no que ele vai se ancorar para poder compreender a existência e os problemas do mundo que é impossível de explicar? O cara acaba recorrendo às ciências empíricas, como biologia, física, etc. Passa-se a explicar alma como energia, que é ciência física, o ser humano como um amontoado de órgãos e átomos. Não há mais relações metafísicas. Consequência da que a quebra da existência de Deus trouxe para a sociedade moderna.

O problema é que todos esquecem que o homem precisa de explicações metafísicas. Na falta dela, as pessoas transferem essa necessidade à ciência, ao Estado.

Durante todo o século XIX, o Estado foi tratado como uma divindade. Até então era a construção máxima que o ser humano achou que pudesse ser criado. Pois veja, desse culto surge o Estado Nacional: “eu, alemão, sou melhor que você francês; eu, francês sou melhor que todo mundo; eu, americano sou o melhor do mundo…”.

Inconfidência Ribeirão – Nesse caso parece ser mais um culto à imagem do homem ao invés do culto do homem em si. Por exemplo, no próprio caso do Código Penal, ele é cultuado por muitas pessoas justamente pelo fato delas não conhecerem os princípios da lei. Elas acabam se amarrando a um simples livro, que representa a imagem desses princípios.

Luiz Rufino – Concordo. Tanto é que se você pensar quais foram os estados mais divinizados, você vê que foram os estados socialistas, fascista e o nazista. O que se acabou cultuando nesses estados? A imagem personificada de alguém.

Também tem a Revolução Francesa, quando em 1793 os jacobinos tomaram o poder. A primeira coisa que o Robespierre fez foi procurar o pintor clássico Jacques-Louis David e se retratar igual a César.

Na própria Roma tinha esse tipo de divinização. Lá as divindades eram as mitologias que eles haviam copiado dos gregos. Na falta de um “personagem”, todos os imperadores – ou augustos – eram os cultuados. Imagine agora a quantidade de propaganda existiu por trás de todos esses regimes. Seja para cultuar Hitler, Stalin ou Mussolini.

Quanto a Robespierre, recomendo que vocês vejam o filme “Danton, o processo da Revolução”, do polonês Andrzej Wajda. Lá está tudo muito bem narrado, um espetáculo de filme.

E olha que coisa maluca, o Robespierre chega a passear em Paris num carro de boi carregado por oito bois, como se fosse ele “A” divindade.

Durante essa época, ele vai laicizar (tornar laico, extrair a cultura religiosa) a cultura. Caem todos os feriados religiosos onde o homem ainda tinha algum contato metafísico com o sagrado, onde se parava o tempo e o homem abria uma porta para conversar com dúvidas metafísicas e, surgem os feriados laicos. O dia do cachorro louco, do empregado doméstico, isso tudo é a cara do nosso tempo.

Inconfidência Ribeirão – Mesmo nos feriados religiosos não acontece isso que você falou, dessa parada no tempo, esse questionamento?

Luiz Rufino – Acontecia, hoje não acontece mais. Vem de 300 anos que sofremos esse processo, de desumanização.

Inconfidência Ribeirão – Você acha que a evolução da humanidade parou justamente no momento em que o homem parou de se questionar metafisicamente? De tentar se entender?

Luiz Rufino – Ótimo. Isso é a transferência dos valores metafísicos para outros valores: ou pro estado, ou para o partido ou para outros derivados. Isso tudo continua vivo. É uma discussão filosófica que demandaria muito mais tempo para explicar. A própria idéia do Estado supervalorizado, é uma idéia que bebe do darwinismo (teoria da evolução das espécies).

Se formos ver pela dialética hegeliana, temos aí um panlogismo, ou seja, há uma lógica em tudo. Isso é perigoso, pois tudo acaba por se resumir a um determinismo: tese, antítese e síntese. Essa última, sempre superior à tese e antítese. Dentro de um pensamento hegeliano vamos dizer que tese seja um pai, a antítese a mãe e a síntese seja um filho deles. Na cabeça de Hegel, quando se chegasse ao Estado, ele seria superior a tudo, é uma visão biológica que se permeou no marxismo. No próprio marxismo acredita-se que o final da sociedade capitalista – independente do que se fizer revolução ou não – é uma sociedade socialista. É biológico isso. Do mesmo jeito que você diz “uma jabuticabeira dá jabuticabas” ele fez aquela afirmação sobre a sociedade capitalista. Sociedade é algo muito imprevisível, não é tão fácil assim.

Inconfidência Ribeirão – E quanto ao auto questionamento?

Luiz Rufino – A sociedade seguiu um trajeto de evolução até certo tempo que depois se perdeu. Houve momentos melhores que agora onde o homem viveu integralmente? Houve. Na Grécia Antiga. O Aristóteles fala o seguinte, vamos estudar “o que é do homem”, ou seja, política para as relações interpessoais, biologia para que ele não fique refém do médico, a física (ela está em nosso entorno), a arte retórica (o homem deve saber falar em público), a poética, construção do teatro e artes em geral. Assim ele cria um mundo de possibilidades. Isso sim é a totalidade do homem.

Inconfidência Ribeirão – E a tecnologia, onde fica?

Luiz Rufino – O Marx, em sua visão econômica e trabalhista, dizia que no passado o homem detinha a totalidade da produção. O cidadão lá tinha sua ovelhinha, que gerava a lã, depois confeccionava uma roupa e depois vendia.

O homem pós-moderno (ou pós-Revolução Francesa), aqueles burgueses que tomaram o poder por estarem impedidos da realeza de ganharem dinheiro. Não foi o povo, Robespierre não era povo, Danton não era povo! O povo era só massa de manobra.

O burguês, cujo único valor moral era ganhar dinheiro pensou: “o que vai me dar dinheiro? O cientista, claro. Através do desenvolvimento puramente científico eu ganho mais dinheiro”. Isso é o mundo de hoje.

As ciências exatas e biológicas se desenvolveram de tal forma que se tornaram ilimitadas. Hoje você já clona! Esse é o maior perigo, pois ela nos trouxe uma falsa sensação de segurança onde não precisamos mais de fazer esforço. Almoçar  tornou-se algo extremamente simples, agora imagine almoçar 12 mil anos atrás… era algo que colocava sua vida e de toda sua família em risco diariamente.  Essa é a falsa sensação que eu falo nos dias de hoje: um sentimento de parasita, do homem massa.

O cidadão olha a sua volta e vê energia elétrica, ar condicionado, carro, televisão, anticoncepcional (ainda bem!), etc. É um mundo fantástico, cheio de coisas, só que é o mundo mais fantástico de todos os tempos na mão do homem mais burro de todos os tempos.

Nessa sensação gostosa de segurança, o parasita da civilização não se esforça mais.

Inconfidência Ribeirão – Seria esse também um dos preceitos da pseudodemocracia estadunidense onde você pega a essência do homem burro no mundo mais fantástico possível?

Luiz Rufino – É isso, só que esse fenômeno é global. Ele está onde o capitalismo está. Em qualquer sociedade em que o capitalismo se desenvolveu você tem sociedade de massa. Aí é que está um dos problemas; Hoje você vê um cidadão na carroça falando pelo celular e que coisa fantástica!. Só que nisso o homem não se esforça para mais nada.

Um aluno na sala de aula que logo pensa “pra que eu vou me esforçar para aprender aquilo?” é outro exemplo de como se cria um parasita da civilização.

Aí você fala de democracia em nosso tempo. O que ela é nos dias de hoje? É um “não sou eu que tenho de me esforçar para falar corretamente na Câmara, é todo mundo entender que eu falo errado” ou “não sou eu que tenho de subir até o professor pra entender o que ele diz, é ele quem deve descer até ao aluno e lamber a lousa para fazer sucesso”.

Inconfidência Ribeirão – Voltando à nobreza, você não acredita que os nobres também são parasitas?

Luiz Rufino – A nobreza decadente pré-Revolução Francesa (Luis XIV, XV e XVI) sim. Se você voltar ao verdadeiro início da nobreza, verá que o nobre se distinguia por se esforçar mais do que os outros. Por exemplo: na cidade de Parma na Itália, os servos faziam presuntos e entregavam ao Senhor [líder local], pois ele tinha uma distinção de sabor muito maior que os demais por ter provado mais presuntos. Não é à toa que os melhores presuntos da atualidade vêm de lá. Esses homens nobres tinham de ser auto-suficientes. Imagina o que é administrar um feudo e ser auto-suficiente, não deve ser fácil. Essa é a questão e o homem moderno não tem mais essa visão.

Inconfidência Ribeirão – Então o nobre não é aquele que vive encastelado vivendo da riqueza do reino?

Luiz Rufino – Não. A nobreza retratada no romance “il Gattopardo” do Giuseppe Tomasi di Lampedusa é decadência de nobreza, era um câncer, precisavam de um bisturi. Foi o que a guilhotina foi pra eles. A carne deles estava podre.

Viver em um palácio de 400 quartos com 600 pessoas onde até o sexo real era um sexo público – as pessoas sentavam para assistir o sexo do rei, esse que nem limpava a própria bunda (faziam isso enquanto ele despachava). São coisas supérfluas que mostram um sujeito que não fazia esforço algum, justamente o contrário do verdadeiro nobre. O nobre é o cara que faz esforço.

É claro essa nobreza tem algo de podre também. A hereditariedade.  É a figura do herdeiro, tem brilho de Lua, um brilho falso que não é dele. Vem do esforço de outro.

Inconfidência Ribeirão – Então a verdadeira nobreza seria por meritocracia…

Luiz Rufino – Sim, a meritocracia.

Inconfidência Ribeirão – Hoje não existe a meritocracia?

Luiz Rufino – Não, não é mérito. De forma alguma. Hoje temos os bu(r)rocratas. Não pense você que as universidades públicas estão cheias de intelectuais. Elas estão cheias de intelectocratas, ou seja, o cara que cumpre burocraticamente os melhores caminhos dentro da universidade.

Eu mesmo conheço muita gente de dentro das faculdades públicas, faculdades de filosofia que não sabe nada sobre filosofia, a ponto de ser doutor em São Tomás de Aquino e usar um broche do PT, que é gramsciniano do ponto de vista da teoria do estudo do conhecimento. É impossível isso. Esses são os burocratas que me refiro.

Inconfidência Ribeirão – Seria a hereditariedade um dos motivos pelos quais nossa sociedade deprecia tudo que herdou?

Luiz Rufino – Na China – que a nobreza é por mérito – era o pai do contemplado que também adquiria esse título, e não o filho. Se você tem algum mérito em vida quem adquire a nobreza é o seu pai. A nossa não. Por isso a decadência da civilização. Pense a civilização como herança, você não sabe lidar com o que herdou porque é vida e esforço de outro. Por isso que falei que é brilho de lua, é brilho morto      .

Inconfidência Ribeirão – Então a gente fica cada vez mais perdido com a tecnologia que herdamos porque não foi nosso esforço ter conseguido aquilo?

Luiz Rufino – Não perdido no manuseio da tecnologia. Nós perdemos o conceito de ciência, que é unificadora, não especialista.

Inconfidência Ribeirão – Então herdamos um mundo e não sabemos o que fazer com ele? Seria essa uma das causas da barbárie?

Luiz Rufino – Sim, isso é a barbárie: não saber o que se fazer em uma situação. As pessoas não têm projeto para si próprio. Elas sequer têm um ideário para seguir. Que exemplos temos hoje em dia? Faustão? É chocante isso. É a cultura de massa, isso é a hiperdemocracia.

O indivíduo ao invés de esforçar para chegar as esferas mais altas do conhecimento e da sociedade, ele prefere que tudo desça até ele. Daí pra frente, a qualidade vai embora. Entra a quantidade, e quando ela entra, vem a podridão junto. Acabam sendo as massas que ditam o que se passa na televisão.

Inconfidência Ribeirão – Não é uma minoria (a elite) que dita a programação?

Luiz Rufino – A palavra final é daquilo que mais vende, ou seja, a escolha do povo.

O povo não quer mais subir até você. Dão risada do conhecimento; Se justificam nos exemplos que seguem, como os respectivos cantores preferidos que falam errado. Há um contexto que justifica a ignorância dele.

Preste atenção nas músicas dos dias de hoje. Que grau de abstração tem um cidadão que ouve essas músicas?

Me desculpe a crueldade, mas é exatamente isso. E os caras que ouvem isso acabam virando até juízes. Um cidadão que não sabe nada sobre cultura, sabe só sobre a especialidade dele, um sábio ignorante. Diferente do homem do passado que “raspava” a parede da sua ignorância e ficava quieto (como diria Nelson Rodrigues).

Hoje você dá um caixote pra um idiota, começam brotar idiotas dos ralos e ele acaba se tornando um fenômeno das massas. Shakespeare e Camões teriam suas cabeças cortadas nessa ditadura da igualdade, onde se você abrir a boca é taxado de preconceituoso.

Hipocrisia. A civilização se fez em cima de preconceitos dizendo isso é bom ou isso é ruim. Mas não tem preconceito nisso. É assim que você constrói. A civilização fez escolhas, não plasmou tudo que lhe foi oferecido. É a maldita liberdade iluminista do “tudo é possível”. Bem relativo, pois se diz “tudo é possível, mas há um limite: a lei”. Quem vai respeitar a lei se tudo é possível? Por isso a lei é driblada em todos os lugares do mundo.

Se eu pudesse, o meu filho – que está entrando na universidade agora – não teria passado pela educação básica. Essa, simplesmente não educa. O grego educava. Ele educava para a especulação, para a retórica porque o cidadão tinha que saber falar em público, educava para a arte, esse é o fundamento. Hoje você coloca um menino de 9 anos sentado dentro de uma sala ouvindo um especialista que não entende nada de cultura. Ele fica nove anos no Ensino Fundamental, três no Ensino Médio e mais quatro na graduação. Depois desses 16 anos você matou qualquer razão vital e intelectual do indivíduo. Atropelou toda a vontade de conhecimento que todo homem tem. Desde criança já começamos procurar explicação para tudo. A nossa educação mata tudo isso.

Você tem aula de física com um cidadão que só sabe física e mais nada; Um biólogo que não sabe nada além da área dele; E não existe uma única ciência que amarre todas as outras ciências entre si e traga uma visão mais totalizante.

Inconfidência Ribeirão – Nas Faculdades de Direito Alemão, nos três primeiros anos não se aprende leis, se aprende princípios. Só depois então que você escolhe pra que lado queira ir. A base para essa linha de ensino é de que a lei irá mudar, mas os princípios não. Tendo em vista esse ponto, qual seria o ideal de educação para os nove anos do Ensino Fundamental?

Luiz Rufino – Você tocou na coisa mais importante que existe: o ensino fundamental. Importantíssimo, pois existem aqueles serezinhos com vontade de aprender, entender e explicar o mundo. Minha filha pequena fica a toda hora, ‘Que que é isso papai?’. As crianças não são tábulas rasas que você escreve o abc. Elas se formam por conta da vontade de aprender. Daí você coloca aquela criancinha com um especialista que dá aula também em faculdade e faz ela ficar lá sentada seis horas por dia vendo um cara vomitar o que ele chama de conhecimento. Ela vê aquilo e pensa “se aquilo é conhecimento então não quero aprender mais”.

Inconfidência Ribeirão – Você mata no ninho….

Luiz Rufino – Pronto, matou no ninho. Como deveria ser a escola de hoje? Primeiramente destruir todas as escolas que existem. Como é que pode dar aula de geografia dentro de quatro paredes? A tecnologia pode tornar o ensino mais próximo do ideal? Pode, mas até hoje não vi um resultado que chegasse próximo disso.

Para fazer acontecer, primordialmente teríamos de voltar à cultura geral. Fazer os alunos lerem clássicos da sociologia, clássicos da literatura, clássicos da política… Essas são as bases sólidas da civilização. Ao negar os clássicos, você nega a civilização. Você prepara ele para o especialismo.

Inconfidência Ribeirão – E as exatas?

Luiz Rufino – Não dá mais para perder a relação com o mundo que a gente tem, técnico-científico. Seria utópico.

O desafio é conciliar a técnica com a cultura geral.

A ciência não é específica, específico é o cientista. A ciência em si é unificadora, pois nasceu da necessidade de juntar todos os saberes. Mais uma vez caímos em Aristóteles – que se você não entender ele, você não entende o mundo de hoje.

Nesse ideal, o mesmo homem que sabe de biologia, sabe de arte retórica, poética, física… Não há “gavetinhas” de saber. É uma unificação de todos os saberes amarrados pelo princípio metafísico, que é justamente o contrário do homem moderno que sabe apenas sobre um único assunto sem amarração.

Se existir alguma possibilidade de salvação no mundo de hoje, essa possibilidade é essa amarração a que me referi.

O esforço do Galileu Galilei para inventar suas ciências experimentais foram esforços de unificação, não de especifismo. Newton, a mesma coisa. E o Einstein, você acha que ele ficou ateu? Ele continuou judeu e morreu como tal. Ele inclusive leu Immanuel Kant. Daí você se pergunta porquê um cara como ele leu Kant. Nisso você descobre que nas obras que leu, ele conseguiu rever os conceitos – por exemplo – da geometria euclidiana. Unificação.

Inconfidência Ribeirão – Não seria utópico nos dias de hoje querer que todos saibam sobre tudo? Não acabaríamos formando um exército de pessoas que sabem “tudo sobre nada” ou “nada sobre tudo”?

Luiz Rufino – Essa é exatamente a crítica que os físicos fazem aos filósofos. Dizem que todos seríamos iniciantes em todas as coisas sem capacidade de aprofundamento. Não acho que alguém que mergulhe no especialismo – que é inevitável – perca a relação com a totalidade.

Recentemente vi na TV Cultura um programa que era realizado em parceria com a UNICAMP,UNESP e USP em parceria com a BBC de Londres. Nele mostraram um pouco da história das universidades, história da idade média, etc. Daí chegou em um determinado quadro, apareceu um parasitologista; Logo pensei “bom, o especialista vai começar falar então vou ter de aguentar uma meia hora. Mas vamos lá. Sou herói da resistência e quero ouvir o que ele tem a dizer”. Fiquei estarrecido. O cidadão é um dos maiores especialistas em Doença de Chagas no Brasil. Ele simplesmente começou a entrevista assim: “Eu sou um apaixonado por Mozart e Beethoven, mas não consigo mais ter prazer estético na música deles por eles não compoem mais. Já me esgotei de tanto ouvir; não que eu tenha parado de ouvir, mas a ciência me traz o prazer que a música não consegue mais suprir. Quando vou ao laboratório e descubro algo de novo, aquilo é um prazer estético…” Visão de estética, visão de ciência, visão de cultura. Logo me questiono: Como um especialista desses pode buscar tais conhecimentos? Concluo que isso é questão de sobrevivência. Não é uma questão de utopia, é sobrevivência.  A escassez de homens como ele me fazem pensar que não há mais salvação, é o fim, a decadência da civilização, não há mais tempo para volta.

Inconfidência Ribeirão – Dentro desse fatalismo, vamos supor que haja uma evolução dentro do aprendizado e resolvam introduzir filosofia no Ensino Fundamental. O que você acha disso?

Luiz Rufino – Um erro gigantesco. Os professores estão mal preparados para dar aula de filosofia. Fora que, se você ver uma apostila de filosofia nos dias de hoje, ela é totalmente ideologizada. Comparam Simone de Beauvoir com Santo Agostinho, não tem cabimento!

Inconfidência Ribeirão – Isso é um traço gramsciniano?

Exato. Por isso parece que ela (Simone) é mais importante por defender o direito das mulheres.

Um exemplo é um dos primeiros livros de filosofia da USP escrito pelo José Américo Motta Pessanha, um especialista em Epicuro, junto com a Marilena Chauí.

Então você pega um compêndio da Idade Média: São Tomás de Aquino e Santo Agostinho. São aqueles livros gigantescos que hoje só se acha em sebo por no mínimo R$ 2.700.

Você sabe o que São Tomás de Aquino discutiu? Ele foi um dos maiores revisores de Aristóteles.

Tem coisas que ele estudou, que são próprios da física quântica, como por exemplo, se um corpo pode ocupar dois lugares ao mesmo tempo.

Agora voltando a Simone de Beauvoir, quando a relegam no mesmo patamar daqueles outros dois, um leigo que vai aprender filosofia começa achar que ela possa até ser mais importante.

Valores iluministas que transformam Aristóteles, São Tomás de Aquino e Santo Agostinho em múmias do passado para que possamos vangloriar apenas o presente. Agora se a USP, na sua primeira publicação sobre filosofia faz isso, como são formados os filósofos?

Daí acabamos por ter professores mal formados em cultura geral. Professores não conhecem ciências, não conhecem artes, eles não tem vontade. Ao contrário dos autodidatas, que quando vêem conhecimento, eles não saem correndo, pelo contrário, querem aprender. Não por burocracia. Por exemplo, os grandes jornalistas são os autodidatas.

Inconfidência Ribeirão – Agora voltando um pouco à visão fatalista – a qual até compartilhamos. Como sobreviver a tudo isso? Como conduzir a vida com essa “consciência” sabendo que tudo está fadado à destruição?

Luiz Rufino – Olha, gosto muito de Dostoievski por tudo pra ele ser ilógico. Pessoas abandonam a religião e se afundam na ciência achando que vão encontrar a lógica. Chega um momento que a ciência é ilógica. É ilógico achar que tudo acaba em nada, que vamos virar “poeirinha estelar” como acreditam os físicos da atualidade.

Tudo que vi até hoje na minha pequena existência foi um conjunto de ilogismos: a ciência é um ilogismo, a religião é ilogismo e a humanidade é um ilogismo. Dentre todos esses, eu prefiro o ilogismo da religião. Por ela, você constrói seu paraíso aqui. Por quê? Você vive de uma forma, acreditando em algo, não sabendo se ele existe. Você busca a compreensão aqui. E compreensão é uma coisa boa. Por nela você se distância do mundo excessivamente prático de hoje.

Só vermos o Kant quando escreveu a Crítica da Razão Pura, ele descarta qualquer possibilidade de explicação racional sobre a religião. Ele diz que Deus existe, mas não tem explicação. A mesma coisa para a imortalidade. Eu diria que ele é um pré-positivismo, ele praticamente criou a ciência contemporânea. São coisas que em pouco tempo não dá para explicar, mas basicamente as consequências do mundo de hoje são as consequências das idéias do Kant. Inocente quem acha que idéias não movem o mundo. Elas movem e muito. Boa parte das ciências práticas sem nenhuma relação metafísica são consequência das idéias do Kant.

Enfim, eu prefiro o ilogismo. Vou repetir Santo Agostinho: “Ainda que Deus fosse uma mentira, eu preferia Deus”. Já fui ateu (sem ele, tudo é possível).

É possível estuprar uma criança e depois esquartejá-la? Só se relativizarmos a cultura. Alguns homens fizeram, mas nenhuma outra cultura fez isso. Mesmo um Tupinambá que comia o outro (no sentido antropofágico), o fazia de modo ritualístico e quase minimalista.

Inconfidência Ribeirão – Mesmo assim, tudo é possível nos dias de hoje?

Luiz Rufino – Sim. Tudo é possível. Deus está morto. A ciência não veio para dar respostas, veio para nos fazer sentir autônomos de tal forma, que nosso olho não está mais virado para o mundo externo de forma que possamos enxergar nossas limitações – como o grego antigo que via a natureza como uma limitação. Essa falta de visão é o mesmo que eu acreditar que sou uma pomba que vai sair voando da janela do prédio e ir ao trabalho. O máximo que eu vou conseguir é quebrar uma perna.

O ser humano não entende mais quando a natureza diz “você nasceu homem e tem suas limitações, e isso você não pode mudar”.

Na Idade Média quando não era a natureza que trazia a resposta, recorria-se a Deus. Então percebiam que liberdade é algo limitado. Você não pode simplesmente acordar um belo dia e matar seu irmão, desejar a mulher do próximo e uma série de outras delimitações.

A modernidade matou tudo isso. Nosso globo ocular virou para dentro e passamos a ignorar as limitações naturais e divinas. E o interior do nosso corpo é um vazio profundo onde o centro do mundo é o nosso umbigo. Daí qualquer coisa que eu escute ou use é o melhor, porque eu gosto. Reduzimos o esforço da clareza em prol da opinião. A hiperdemocracia reduz tudo à opinião. Se você reduzir tudo a ela, não existe clareza, não existe ciência, não existe nada, só opinião.

Inconfidência Ribeirão – Então a hiperdemocracia é a passagem sem volta da destruição?

Luiz Rufino – Exato. Qualquer indivíduo que tenha gosto, ele se aglomera com outros de mesmo gosto e ele passa a impor aquilo que você vê na TV, rádio ou em qualquer outro lugar, uma ditadura da maioria. Eles já venceram.

Tudo que repito aqui pra vocês o Nelson Rodrigues já sabia. Só que ele não usava a expressão “homem massa”, ele usava o “cretino fundamental”. Hoje estamos cheio deles.

A principal característica do “cretino fundamental” é politizar tudo: uma mesa de jantar vira uma disputa política; deixa de ser uma relação de pai e filho ou marido e mulher, uma relação de respeito. Quem faz muito isso é o Michel Foucault.

Inconfidência Ribeirão – No meio acadêmico reverencia-se muito Michel Foucault. O que você acha que falta para compensar esse excedente de Foucault na educação?

Luiz Rufino – Volto a te dizer. Não acredito em uma educação para todos. Você vai cair de costas, mas acredito que é preferível educar uma minoria e torná-la excelente, esforçada em todos os sentidos e se tornar nobre.

Nobreza não diz respeito à classe econômica, casta ou qualquer coisa do tipo. O nobre pode ser um pedreiro, um homem que exige de si, esse é o nobre.

Essa minoria teria de se formar e ser exemplar, de modo a docilizar as massas. Que essas pessoas fossem modelos a serem espelhados pela maioria. Em todas as esferas.

Inconfidência Ribeirão – Existe algum nobre nos dias de hoje?

Luiz Rufino – Não. E não confunda nobreza com sociedade. Por exemplo em Ribeirão Preto a sociedade se reduz à “eu convidei” ou “eu fui convidado”. Só ver essas personalidades que aparecem em capas de revistas para dizer que foram à Aspen. Cadê a exemplaridade nisso?

Um cidadão mais abastado deve, no mínimo, ser mais responsável do que aquele que não nasceu, deve dar o exemplo. Ele tem de ajudar todos a sua volta, fazer esforço para melhorar o meio em que vive.

Os potenciais nobres de hoje seriam os meios de comunicação. Uma minoria que teria de dar o exemplo a todos. Porém eles fazem justamente o contrário, atendem a todos os desejos das massas. Ninguém mais quer ver um filme abstrato, só querem ver homens explodindo, aquilo não tem esforço algum.

Onde está o conceito de catarse que o Aristóteles criou ao criar o drama e a tragédia? Esse tipo de experiência deveria no mínimo fazer o indivíduo sair modificado dali após assistir por quase 2 horas. Mas não, o homem parasita de hoje prefere tudo fácil: a música fácil, o cinema fácil e a arte fácil. Volto a dizer que plasmaram a cultura, pois tudo virou cultura e, tudo que exigir esforço do homem ele dará as costas.

Um gênio na nossa sociedade atual corre o sério risco de passar despercebido, visto que um gênio só é reconhecido em uma sociedade de gênios. Então, se existe algum homem exemplar, eu não conheço. E não somos nós, porque somos mal formados.

Você provavelmente vai perguntar como se define um homem massa. É simples. Se você já se perguntou se você é especial em alguma coisa e chegou à conclusão de que você ou não especial em algo, você já não é um homem massa. Esse nunca se questionou. Essa é a característica fundamental do homem massa: nunca se questionar. Vou te falar as três principais características do homem massa: Primeiramente ele se acha intelectualmente acabado. Posteriormente, ele se acha eticamente acabado. Quantas pessoas você conhece que sonegam imposto de renda e acha que são éticos? Quantos outros que colocam ímã no registro de água, e por aí vai.

Já dizia Aristóteles: A Justiça não se faz prejudicando alguém.

Que bem seria esse se ele vier do mal de alguém? Esse indivíduo jamais pode se achar eticamente acabado.

Inconfidência Ribeirão – A ética foi pro saco…

Luiz Rufino – Sim, e a pior de todas: ele passa a botar a opinião dele em todas as coisas. Começa a achar de tudo. Isso é opinião, não é clareza. No passado, o cara que não sabia ficava calado, uma atitude muito mais sábia. A palavra é prata, o ouvido é ouro. Hoje não, qualquer indivíduo acha que a sua opinião é a clareza. Aí você diz pra esse cara que uma música atual não é tão elaborada quanto uma sinfonia de Mozart e ele responde: “ah isso é questão de gosto”.

Pronto. Acabou. É o fim. Não tem mais aprendizado. Acabou o mundo.

Rodrigo Henrique do Café com Ribeirão pergunta: É uma prostituição existencial?

Luiz Rufino – Perfeito. O parasita é o prostituto existencial. O homem de hoje é um náufrago. Ele não bota na proa de seu barco um destino. Ele não tem um destino certo, uma meta. O cidadão tem de se esforçar. Não há vida sem esforço.

Ao invés de se informar e aprender novas coisas pois isso que nos mantém vivos, o homem não quer se esforçar pra nada! A tecnologia permitiu que esse imbecil coletivo, que esse homem massa, que esse parasita chegasse às esferas públicas.

Raul Ramos do Café com Ribeirão: E ele justifica isso como cultura…

Luiz Rufino – Isso, ele justifica como cultura. Hoje tudo é cultura.




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  3 Responses to “ÁGORA – com Luiz Rufino dos Santos Júnior”

  1. [...] peculiares a si, “é permitir voz a todos“, como definiu o professor Rufino em entrevista dada no início do ano ao tabloide eletrônico Inconfidência [...]

  2. Tive o prazer de ter tido você como meu mestre na uniseb interativo coc de Ribeirão Preto nesse primeiro semestre deste ano maravilhosa suas ideias e sugestões para mudarmos nossa sociedade ou pelo menos repensarmos maneiras de agir diante da mesmas considerando pontos positivos e negativos também.

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