jan 292010
 

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(publicada originalmente na edição 8 – julho de 2009 – segunda quinzena)

Sensibilidade à flor da pele. O músico, principalmente o clássico, vive assim. A música não é momento, é realidade a cada instante. A elaboração e o apuro para se executar este tipo de som ultrapassa os sentidos. Impossível ser indiferente quando as primeiras notas de uma orquestra ecoam pelos ares. Pode-se dizer o mesmo das palavras do professor e músico Milton F. Bergo. Sinceras e sensíveis. A cultura pede socorro aos berros, mas agoniza em silêncio. Até agora.

Nossa redação é humilde, mas a música é de primeira.

Inconfidência Ribeirão – De onde veio o gosto pela música?

Milton Bergo – Bom, eu sempre gostei de música, tanto erudita quanto popular. Em especial o tango, do qual sou fanático desde os 8 anos de idade. E eu ouvia, na orquestra típica de tango, o violino. E ele me chamava muito a atenção.  Ganhei um da minha Vó e passei a estudar sozinho, totalmente empírico.  E com 10 anos eu comecei com professor.

Inconfidência Ribeirão – A sua formação é única e exclusivamente da música ou teve alguma outra?

Milton Bergo – Não, eu tenho formação musical. Apesar de, em algum momento da vida, eu ter pensado em estudar Direito, adoro Literatura, Filosofia. Mas minha formação musical é prática, não tem faculdade. Eu tenho curso de extensão universitária.

Inconfidência Ribeirão – Como foi o enlace com a Orquestra Sinfônica de Ribeirão Preto?

Milton Bergo – Em 1980, quando o então maestro titular da época, Lutero Rodrigues, estava saindo para a Alemanha, e estava assumindo o maestro Marcos Pupo Nogueira. Foi por indicação do meu professor, o falecido Orlando Bernardes. Meu primeiro concerto foi na esplanada do Pedro II com a abertura de 1812 de Tchaikovsky, sob a regência do Maestro Isaac Karabtchevsky. Na minha opinião, um dos maiores maestros do Brasil. A partir daí, eu evoluí mediante concursos. Até então, a orquestra tinha uma posição praticamente amadora. Depois ela atingiu um patamar semiprofissional, e cheguei a spalla. Spalla seria o primeiro violino, violino principal. Durante quatorze anos me mantive nessa posição, até o ocorrido anos atrás com as demissões em massa com essa nova diretoria que está aí até hoje.

Inconfidência Ribeirão – Isso foi na década de 90?

Milton Bergo – Esta profissionalização foi no final da década de 90 com a vinda do maestro Roberto Minczuck. Quando ele chegou, foi quase efetiva a profissionalização.

Inconfidência Ribeirão – Pode-se falar que foi o ápice da orquestra sinfônica?

Milton Bergo – É, tecnicamente foi. Em matéria de direitos trabalhistas e convivência profissional talvez tenha sido.

Inconfidência Ribeirão – Existiam os músicos búlgaros?

Milton Bergo – Sim, os búlgaros vieram em 1996, movimentaram a orquestra. Eles chegaram e houve uma semiprofissionalização, em que todos os músicos foram registrados. Eles tinham uma diferenciação salarial, e isso incomodou por algum tempo, visto que não haviam muito superiores. Tinham uma experiência musical muito boa, vinham da Europa. Alguns até eram muito bons, mais não tinham o status de professores, não tinham uma bagagem tão grande para chegar como professores, que era a intenção da orquestra na época. Mas eles se tornaram companheiros de luta, companheiros de orquestra.

Inconfidência Ribeirão – Eles eram mais conscientes?

Milton Bergo – Sim, porque eles viviam uma situação profissional já antiga lá na Europa, e alguns até já tocaram na The Sofia National Opera da Bulgária, durante trinta anos uma orquestra de ópera famosa. Mas eles já foram embora de Ribeirão. Voltaram pra Alemanha, pros Estados Unidos, alguns voltaram pra Bulgária, outros foram pra Manaus. Naquela época, a orquestra de Manaus pagava muito bem e até hoje é uma orquestra que paga muito, mas fica meio fora da rota.

Inconfidência Ribeirão – Nessa época os músicos davam aulas para pessoas carentes, certo?

Milton Bergo – Nessa época sim, mas a escola é de muito antes.

Inconfidência Ribeirão – Era bem anterior?

Milton Bergo – Desde a época da saudosa Dona Diva Lopes de Carvalho, que era uma pianista de formação internacional. Tive aulas com ela de teoria, harmonia. Chamava Escolinha da Orquestra, na época da década de 80. Essa escolinha servia como um propedêutico (ensino básico de uma disciplina) para o aluno iniciar e depois chegar à orquestra. Em 1983, nós começamos a participar em Tatuí dos encontros de orquestras, e Ribeirão Preto foi considerada uma surpresa. Era uma época em que orquestras jovens eram celeiros para os músicos galgarem (buscar) postos para as orquestras tradicionais. A Venezuela possui tais projetos, tem grandes orquestras e todos os músicos das orquestras profissionais se originam destes grupos jovens. Nessa época, Tatuí era o ponto nevrálgico onde ocorriam todas as ações didático-pedagógicas  e de encontros das orquestras jovens do estado de São Paulo.

Inconfidência Ribeirão – Isso acabou na orquestra?

Milton Bergo – Acabou, foi de 1984 a 1993. A orquestra jovem de Ribeirão tinha um resultado muito excepcional porque era uma orquestra pequena, de câmara, doze, quinze pessoas e todo mundo estava em plena atividade profissional. Esses jovens eram muito bem vistos pela orquestra profissional e a orquestra jovem era a “menina dos olhos” da instituição.

Inconfidência Ribeirão – Mas a escolinha continuou ou acabou nesse período?

Milton Bergo – Como você disse, os búlgaros deram aulas nessa escola, mas a intenção não era mais a mesma. O último resquício de orquestra jovem que se tentou foi abafada, porque usaram para apresentar. Inclusive a orquestra profissional foi usada para situações indevidas, como casamentos. Contratar o músico da orquestra tudo bem, mas a entidade em si, não.

Inconfidência Ribeirão – Ou seja, você pode contratar um músico da orquestra, mas não a orquestra pra ir lá?

Milton Bergo – E o mais grave ainda é que o músico vai e não ganha nenhuma remuneração à parte.

Inconfidência Ribeirão – E o desligamento, como ocorreu depois de um casamento tão bem sucedido?

Milton Bergo – Quando chegou o último maestro, o Cláudio Cruz, eu até então estava atuando na fila, ou seja, não tinha cargo nenhum de importância.  O assistente do maestro era o Mateus Araújo, meu amigo. Disse que precisava para spalla de um violinista de ponta para fazer o trabalho. Mateus é um dos maiores do Brasil, nunca é demais ovacionar. Como compositor, pianista e violinista. Diante do pedido eu resisti um pouco, mas como era meu amigo de anos e um músico extraordinário, voltei à spalla. Nós ensaiamos montar um sindicato, que não prosperou. Eram só eu e mais dois. Os músicos concordavam com essa constituição do sindicato. A diretoria, sabendo disso, interveio. Como se esse direito adquirido pelo trabalhador fosse uma coisa absurda. Desisti da idéia até as duas primeiras demissões.

Inconfidência Ribeirão – Houve uma justificativa formal para estas demissões?

Milton Bergo – Não. Daí eu me coloquei como spalla e questionei. Fiz uma carta e quis saber o motivo. Como spalla, representante dos músicos, representante político. Cercearam meu direito de expressão, me retiraram da sala de ensaio e fui demitido. Comunicação feita, por sinal, pelo arquivista. A pessoa responsável pela diretoria da época nem se importou ou veio falar comigo.

Inconfidência Ribeirão – Depois de quantos anos de casa?

Milton Bergo – 25 anos. Depois dessa demissão, dos que tinham uma posição política, foi uma onda, uma após a outra. Demitiram o maestro assistente por motivo fútil, e os poucos direitos que conquistamos nos cinco, seis anos, foram renegados. Voltou-se à estaca zero nos direitos trabalhistas.

Inconfidência Ribeirão – Dentro da Orquestra, os músicos que estão lá, eles não fazem nada por quê?

Milton Bergo – Porque a grande maioria é estagiário. Ganham quase um terço do salário, quase metade para fazer a função de profissionais.

Inconfidência Ribeirão – Eles são contratados sob o regime de estágio?

Milton Bergo – Alguns tem CLT (Carteira de Trabalho), mas a maioria não tem registro integral na carteira, estão sob o regime de estágio. E os poucos profissionais que restaram perderam a força. Porque a força da Orquestra vem da Comissão da Orquestra, que trabalha junto com o spalla. E se o maestro tomar qualquer atitude que contrariar os músicos, a orquestra sai. Tem um fato no Rio de Janeiro, uma praça musical muito consciente, sindicalizada. Um maestro alemão desrespeitou o naipe de violoncelos, e o spalla dos violoncelos se retirou. Maestro convidado, veja bem! Diante disso ele se retratou, pediu desculpas, porque tinha sido realmente grosso, desrespeitoso para com o naipe. Claro que a exigência e a rigidez tem que haver em qualquer posto de autoridade, mas a rigidez com doçura. Sem nenhum tipo de ditadura.

Inconfidência Ribeirão – Você tem alguma esperança de que as coisas mudem na sociedade musical da orquestra de Ribeirão Preto, ou acabou?

Milton Bergo – Eu só tenho uma esperança: uma mudança radical.  Das bases, uma nova diretoria.

Inconfidência Ribeirão – As pessoas que conduzem hoje a orquestra são músicos?

Milton Bergo – Não, houve uma época que sim, inclusive eu fui diretor. Mas depois de uma reforma do estatuto, foi vetada a participação dos músicos na diretoria ou no conselho.

Inconfidência Ribeirão – Pode-se dizer que faltou um pouco de inteligência musical à diretoria?

Milton Bergo – A Filarmônica de Berlim é dirigida pelos músico, a Fundação Filarmônica. É claro que não dá para se pensar no Brasil, com nossa situação, com um músico dirigindo uma orquestra. Precisa-se de profissionais para gerir a área musical. Isso eu vejo pelo João Carlos Martins da Bachiana Filarmônica, que é músico da orquestra, e eles têm participação só na área musical. Na área burocrática, administrativa, quem gere é a Fundação Bachiana, que são burocratas profissionais. Só que tem que ser profissional da área. Eu não sou contra a pessoa não ser músico, mas ele tem que saber com o que ele está lidando. Com músicos, artistas, quem têm uma sensibilidade, uma formação humanística diferenciada. É uma outra relação humana.

Inconfidência Ribeirão – Do que você sente mais saudade?

Milton Bergo – Eu gosto muito da orquestra sinfônica, adoro. Inclusive eu agora vou pra Belém tocar com uma. Apesar de existir, como se diz, um ditador que é o maestro. Mas hoje em dia essa visão está mudando. O maestro é apenas um músico. A orquestra sinfônica é um organismo democrático. É uma micro sociedade, uma micro empresa mesmo, que trabalha em parceria. Eu sinto saudade dos amigos que deixei. E que já não estão nesta. Alguns já deixaram antes desse processo todo. Na verdade não é saudade, é um pesar por Ribeirão Preto mais uma vez ser gerida nessa área por pessoas que não têm um mínimo de competência e ética para cuidar dessa área.

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