A Humanidade Cega (*Frases de Jesus)

 Posted by at 5:23 am  Sem categoria
jan 202010
 

Reportagem em pdf (clique aqui para baixar/visualizar – 223kb)

(Matéria publicada originalmente na edição “1″, em abril de 2009, primeira quinzena)

No aguardo...

Eles não veem nada. No máximo vultos e luzes. Precisam de um guia – que nem sempre é confiável – para mostrar um lugar antes de caminhar por ele. Pode ser uma haste de metal, um ser humano ou um cachorro. Tentam caminhar pela avenida da cidadania, mas a cidade apenas mostra a rua dos preconceitos. Essa rua teve seu primeiro piso na Grécia antiga, onde os deficientes visuais ficavam às margens da sociedade, sem poder participar ativamente dela.

“Vamos ser pessoas que por acaso portam uma deficiência, não deficientes que por acaso são pessoas”.

Hoje, algumas dezenas de séculos depois, a sociedade evolui em suas leis, mas não em seus atos. O Brasil possui uma Constituição aclamada como cidadã mas não é plenamente cumprida. O conhecimento não é feito para aprisioná-lo em estantes. Mas, alguém se importa com a falta de acesso à informação? Ou com a escassez da legislação em braile? Nem sempre a deficiência é física, como aprendemos com Jesus, um deles. Ou Aquele?

Jesus

Jesus Lopes Conde perdeu a visão aos dez anos. Devido ao sarampo, dizem. Em sua infância foi engraxate e pensava que cego só pedia esmola. Teve medo da cegueira. Nascido em Luziânia, no estado de Goiás, foi bem cuidado e teve apoio da família. O governo, interessado em conhecer os avanços da medicina, pelas mãos do ministro das relações exteriores da época, viajou a Roma para fazer cirurgias de 1969 até 1977. Na Itália, conheceu um cidadão que era cego e que trabalhava como escriturário. Ali percebeu que os deficientes visuais tinham condições de trabalho como qualquer outro cidadão. Esse amigo então recomendou um dos vários programas de inclusão social ativos na época. “Lá é um país marcado pela guerra e tem mais programas pra cegos”, explica.

O guarda-roupa

Voltou com quinze anos para o Brasil. Trabalhou em diversos lugares, desde fábrica de autopeças até na prefeitura de Campinas em um serviço de rádio. Além de Campinas, já morou em Americana e atualmente reside na Associação dos Cegos de Ribeirão Preto. Escreveu quatro livros (dois editados). Um deles, “O Diamante” é vendido em livrarias da cidade.

“Sabe qual a melhor família para se apoiar nos piores momentos? nossa força de vontade”.

Ele busca conhecimento ouvindo noticiário no rádio e interagindo com as pessoas. “Todas informações nós temos que ter. Não podemos ser dogmáticos. Uma informação só é ruim se não a entendermos.” Questionado como escolhe seus candidatos, disse: “Como cego busca o voto eu não sei, mas como EU busco eu sei. O que me falta é só o farol, o motor está funcionando. Não pense porque você tem a visão que você não vai trombar no poste.(…) Não existe uma maneira diferente de cego procurar o voto, existe uma maneira de como a sociedade o incluirá nesse processo”.


Desilusão política

José dos Santos Rodrigues, também conhecido na Associação dos Cegos por “Zezé”, tem 60 anos e é vendedor ambulante. Já acreditou mais nos políticos. Tal desilusão veio quando foi cabo eleitoral (um dos vários cabos deficientes visuais que angariaram votos) de um candidato a vereador também deficiente visual, que por ventura foi eleito pela primeira vez em 1988. Zezé conta que após as primeiras semanas de mandato, foi ao gabinete do vereador eleito pedir que o mesmo propusesse um Projeto de Lei para beneficiar os deficientes visuais. O representante popular negou qualquer ação do gênero; Alegou categoricamente: “os cegos não votaram em mim, não tem o porquê ajudá-los”. Zezé, enfurecido pelo que considerou “traição”, logo mandou seu petardo verbal: “Ô canalha, é o seguinte canalha. O cego não votou em você porque o voto é por cédulas, ele não sabe escrever. Muitos deficientes visuais já nasceram assim. Viu? Canalha!”.

“A pior deficiência é aquela que não é mostrada. Ela está na alma, é o preconceito”.

Momentos de desabafo à parte, Zezé reflete: “O que nós estamos fazendo como seres humanos para melhorar o mundo e impedir que essas coisas aconteçam? Garanto que estamos fazendo muito pouco”. Diz que “esse comportamento é do homem. Acredito que qualquer eleito a um cargo público acabará por tomar atitudes imorais”.
Encerra a entrevista demonstrando suas habilidades com computadores. É proficiente (competente e eficiente no que faz)  em softwares (programas) de edição de áudio e vídeo, dentre outros; dá aulas grátis de informática aos outros deficientes visuais que pretendem entrar para o mundo virtual. Além  disso, é referência regional na área.

Voto é ferramenta

Euclides Marques, 50 anos, vendedor ambulante e nascido em Araraquara, perdeu a visão desde os oito meses de idade. Tal fato não o impediu de ser um ativista social, pois segundo ele “é um mecanismo integrante do sistema que, se bem usado, sempre mudará as coisas para melhor”.
Um dos meios escolhidos para tais mudanças é o voto, que segundo ele jamais deve ser feito sem uma pesquisa prévia dos programas apresentados pelos candidatos. No caso dele, a busca é feita através da TV, rádio e alguns raros programas de candidatos que disponibilizam suas diretrizes em braile.
Nos tempos de eleição o assédio é igual com todo mundo. Euclides diz que vários candidatos vão à Associação dos Cegos de Ribeirão Preto fazer promessas e pedir votos. Nessas horas os políticos os tratam como iguais, visto que o voto de um milionário tem o mesmo peso do voto de Euclides.

Imagem consciente

D´Souza, como preferiu se identificar, tem 42 anos. Nascido em Ribeirão Preto, perdeu a visão quando tinha 38 anos devido a um acidente de carro em São Paulo onde sofreu um descolamento de retina. Trabalhou durante vários anos na Editora Abril da capital e também na Folha Ribeirão como fotojornalista. Atuante em várias áreas da fotografia, ainda tem a noção espacial que um fotógrafo precisa. “Basta que alguém descreva o lugar para mim que eu formo essa imagem na minha cabeça. O resto é a percepção do calor dos raios solares e a percepção sonora de profundidade de cada lugar” ressalta.

“Uma pessoa só passa a enxergar quando ela passa a depender de si mesma”.

No pensamento um projeto. Casar a arte de fotografar com a recente aprendizagem em ser deficiente visual. Esse infortúnio não o impediu de criar e agir em busca de seus objetivos.
Na tentativa de aceitar a sua nova deficiência, D´Souza percebeu que a vida era “mais rápida” quando tinha visão. Atualmente, sem o estímulo ocular, tudo é encarado como um desafio que demanda maior tempo para ser superado. Segundo ele, ser aceito pela sociedade como um cidadão normal é algo difícil de acontecer. Ele acredita pouco na política e não sente que o voto dele mudará muito do cenário atual.

Associação dos Cegos

Três cidadãos citados na reportagem moram – por opção ou necessidade – na Associação dos Cegos de Ribeirão Preto, localizada à Rua Lafaiete n.º 897. Além deles, há outros moradores. O local se mantém com mil reais mensais doados pela Prefeitura e com doações da sociedade.




Confira também

coded by nessus

 Leave a Reply

(requerido)

(requerido)

You may use these HTML tags and attributes: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>